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Ações tornam ônibus mais seguros para passageiros e rodoviários de Maceió

Um transporte com bom custo-benefício e seguro é o que muitas pessoas desejam para conseguirem se locomover com mais facilidade por suas cidades. Em Maceió, os usuários de ônibus já sentem os efeitos de diversas estratégias que devolveram a sensação de segurança à população.

Redução no número de assaltos, lei que assegura a mulheres que desçam mais próximo de seus destinos e campanhas contra o assédio nos coletivos estão entre as ações que já apontam o impacto positivo na vida dos maceioenses que utilizam diariamente o transporte público da cidade.

Números apontam redução no número de assaltos

A cena de um ônibus parado sem completar seu trajeto ou na porta da Central de Flagrantes, no bairro do Pinheiro, era comum no cotidiano do maceioense. A imagem significava que passageiros e rodoviários tinham sido reféns da ação de criminosos. Essa rotina de assaltos tirava o sossego de quem ia trabalhar e atormentava os usuários do transporte público.

Mas, ano após ano, os números vêm caindo e se distanciam cada vez mais dos péssimos índices que o transporte coletivo da Capital trazia. Se comparado o mesmo período (janeiro a agosto de 2015 e 2020), a redução no número de ocorrências foi de 93%. Com relação ao ano com mais assaltos a ônibus em Maceió (2016), a redução foi de mais de 95%. 

Para se ter uma ideia do impacto da redução, em 2016 foram registrados 1109 assaltos a ônibus em Maceió, o que representa uma média de mais de 3 assaltos por dia. No ano seguinte, 2017, a Agência Tatu mapeou essas ocorrências e mostrou como a situação afetava a saúde mental dos rodoviários. Na época, os trabalhadores chegavam a “colecionar” de 10 a 15 assaltos a ônibus (veja aqui).

Até agosto deste ano foram registrados 38 assaltos a ônibus, tendo a Capital zerado as ocorrências desta natureza nos últimos três meses. Essa mudança de cenário é atestada pelos próprios rodoviários, que, com os números positivos, se sentem mais seguros no trabalho. 

Rodoviário há 26 anos, Laelson destaca ações conjuntas. Foto: Graziela França/Agência Tatu

Prestes a completar 52 anos, o motorista e instrutor Laelson Serafin trabalha há 26 anos como rodoviário. Para ele, a redução no número de assaltos faz com que o trabalho seja desenvolvido com mais tranquilidade. 

“No passado, a gente tinha assalto frequentemente aqui, mas, nos últimos anos, a gente teve uma redução significativa e eu acredito que esse ano a gente já teve mês sem assalto. O trabalho que a polícia vem realizando aí no dia a dia tem sido muito eficaz, principalmente as ações preventivas e a gente está se sentindo bem mais seguro agora”, destaca o motorista que atua há 12 anos na empresa São Francisco. 

Gleyciano Nunes é cobrador há quase nove anos e nos quatro primeiros anos na profissão foi assaltado nove vezes. “Antigamente tinha muito [assalto], principalmente essa linha de Bebedouro. Só que querendo ou não acho que a polícia começou a cair muito em cima, porque, imagina, você cinco anos dentro de um coletivo e não ser assaltado, acho que já é uma vitória”, relata o rodoviário, lembrando que já foi assaltado quatro vezes em um mês.
Gleyciano Nunes é cobrador na Empresa São Francisco. Foto: Graziela França/Agência Tatu
Parada Segura

Lei permite que mulheres desçam fora do ponto de ônibus em Maceió

A sensação de segurança no transporte público de Maceió também se dá por motivos que vão além da redução de assaltos. Enquanto cursava Ciências Sociais na Universidade Federal de Alagoas, Kássia Gomes, 23 anos, utilizava o transporte público todas as noites. Com aulas que iam até às 22h, a jovem precisava desembarcar do ônibus em um ponto distante. Com o surgimento da Lei da Parada Segura, Kássia passou a descer bem mais próximo de sua residência.

“Utilizei muito durante o período da faculdade. Estudava a noite e sempre pegava o ônibus depois das 22h. E algumas vezes voltando da academia. A distância era pequena, mas fazia bastante diferença, porque o horário era geralmente próximo às 23h. Assim, eu me sentia menos exposta à violência”, relata.

A universitária Pei Shung Fon, de 21 anos, também utiliza o aparato. Moradora do  bairro do Pinheiro, ela enfatiza que os trabalhadores das empresas de transporte se mostram solícitos no momento que ela pede para fazer uso do mecanismo de segurança. 

“Logo quando começou eu fiquei receosa porque ficava todo mundo olhando e eu pensava que o motorista ia ficar chateado, mas eles são sempre tranquilos. Como moro no Pinheiro, eu tenho que descer no Cepa e ir andando. Então peço para parar um pouco antes para pegar um roteiro com ruas menos escuras devido à situação do bairro”, conta.

A lei nº 6.695, sancionada em 27 de setembro de 2017 e de autoria da então vereadora Tereza Nelma (PSDB), regulamentava o direito de mulheres solicitarem o desembarque dos ônibus da capital alagoana fora dos pontos oficiais após às 20h. De acordo com a legislação municipal, a Parada Segura é o local no itinerário do transporte coletivo, sem qualquer desvio de rota, escolhido pela mulher como o mais seguro para desembarcar. O mecanismo é voltado para qualquer transporte coletivo que funcione com a concessão da Prefeitura.

Mas não é só o ambiente das ruas que oferece riscos às mulheres.  Em meio às viagens do cotidiano, há outros receios que o público feminino enfrenta. Dentre essas dificuldades, está o assédio. Para quem já passou por essa situação dentro do coletivo, campanhas que visem conscientizar e coibir tais ações podem trazer efeitos positivos e uma tomada de decisão mais eficaz.

Elayne Joyce foi vítima desse crime há cerca de dois anos e comenta que a sensação é de vulnerabilidade. “Estava no ônibus voltando do centro, não lembro o dia exato. O que chamou atenção, infelizmente, foi a blusa que eu estava usando. Tinham poucas pessoas no veículo. O rapaz subiu para vender seus produtos, encostou em mim e falou dos meus seios e passando a língua nos lábios disse: ‘Que peitos delícia, só queria ser essa blusa’”, relembra a jovem.

Elayne acredita que uma senhora que estava próximo ouviu, mas preferiu ignorar, o que parece ser comum nessas situações. “No momento fiquei sem ação, deu uma certa insegurança por não saber com que tipo de pessoa estava lidando, não tive como pedir ajuda e, logo em seguida, ele desceu do ônibus. Precisa-se de mais conscientização por parte da população e um pouco de empatia também. Quando vir alguém numa situação constrangedora tentar tirar a vítima de perto do assediador da forma mais discreta possível e ligar para a polícia”, completa.

Sinturb realiza campanhas de conscientização desde 2017. Imagem: ilustrativa/Sinturb

Para diminuir essa sensação de impunidade e apoiar às vítimas desse crime, o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros de Maceió (Sinturb) executa há três anos campanhas semestrais para conscientização sobre a importância de denunciar o assédio.  O presidente do Sindicato, Guilherme Borges, conta como essas ações vêm sendo realizadas.

“As campanhas estão sendo sempre publicadas nas redes sociais onde temos o nosso público, mas também dentro dos ônibus e fora deles, através de cartazes e material em busdoor e outdoor. É uma forma que encontramos de conscientizar as vítimas sobre a importância de denunciar e consequentemente evitar que novos casos surjam”, explica.

Nestas campanhas, o Sinturb também também apresenta o número 180 para denúncias e o botão de pânico no aplicativo de mobilidade urbana Cittamobi, em que casos de assédio podem ser denunciados. Confira como denunciar.

Para que as campanhas tenham efeito é necessário envolver também os rodoviários. Foi então que o Serviço Social do Transporte e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest/Senat) passou a capacitar esses profissionais sobre essa temática, como explica Thaís Cabral, coordenadora de desenvolvimento profissional. 

“A gente já trabalhava com os rodoviários com relação à acessibilidade, qualidade no atendimento a idosos, gestantes e pessoas com deficiências, mas a gente começou a ver a necessidade de trabalhar também a mulher dentro do coletivo de passageiros, de que maneira o motorista e cobrador podem ajudar a evitar esse processo [assédio] dentro do ônibus”.

As capacitações, que viraram uma determinação da SMTT, integram também especialistas e representantes das pastas de defesa dos direitos de várias categorias. “Na verdade, a gente fala sobre todos os direitos que circulam esse tema, de que maneira ele consegue identificar e caso aconteça como proceder. Então, a gente também fixa cartazes nos ônibus para incentivar as mulheres, porque, muitas vezes, ela sofre esse assédio, mas não consegue falar, tem medo”, completa a coordenadora. 

O presidente do Sinturb também vê como positivo os resultados das campanhas de conscientização. “A gente sabe que o assédio acontece em todos os lugares, mas acreditamos que a campanha diminuiu o número de casos, mostramos os tipos de assédio, as punições e, com isso, percebemos que os números de denúncias diminuíram, mas esperamos que isso seja reflexo da mudança dos comportamentos criminosos”, menciona Guilherme.

Baixa taxa de acidentes

Ônibus registra apenas 10% de acidentes de trânsito na Capital

O transporte público também é seguro quando se trata de acidentes de trânsito. De acordo com dados fornecidos pela Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT) à reportagem da Agência Tatu, no período de janeiro de 2015 a agosto de 2020 foram registrados 18.836 acidentes em Maceió.

Deste total, apenas 1920 ocorrências envolvem ônibus e micro-ônibus, ou seja,  10% do valor total de sinistros na capital alagoana. Vale ressaltar que esse número pode ser ainda menor, uma vez que a SMTT não possui filtros da quantidade específica de acidentes com ônibus urbanos. Neste contexto, entram veículos que fazem transporte intermunicipal, ônibus interestadual, turístico, entre outros segmentos.

Confira gráfico abaixo e entenda:

 

DADOS ABERTOS – Prezamos pela transparência, por isso disponibilizamos a base de dados utilizada na produção desta matéria para consulta:

 

 
 
 

Publicado em 30 de setembro de 2020

Reportagem: Graziela França; Géssika Costa 

Diagramação e edição de vídeo: Lucas Thaynan

Fotografias: Graziela França; Lucas Thaynan; Jonathan Lins

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