Alagoas registrou quase 4 mil casos de HIV em seis anos

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Desde 2014 pessoas diagnosticadas com o vírus são notificadas e iniciam tratamento; casos de Aids são de 3858 em 10 anos

Por Graziela França

1º de Dezembro é o Dia Mundial da Luta contra a Aids e o início de um mês voltado para a intensificação do debate e conscientização sobre o tema. Apesar de ser um diagnóstico difícil de ser recebido, é necessário para um tratamento eficaz, controle do vírus e interrupção da cadeia de transmissão do HIV. 

Morador de Maceió, Cláudio Villarins é portador do vírus há 28 anos, mas ficou cerca de oito deles sem conhecer o seu diagnóstico. “Na época dos anos 80 e 90 a gente não tinha esse diagnóstico tão fácil. Os exames eram enviados para São Paulo e quando a gente ia descobrir já estava bem doente. E esse foi o meu caso também, já cheguei caindo cabelo, emagrecendo, diarreia, mas eu não sabia que estava, ninguém sabia”, relembra.

Integrante da coordenação da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids de Alagoas, ele relata a dificuldade que era obter o diagnóstico na época, quando só era possível fazer exames em São Paulo, o que causou outras complicações para Cláudio. “E em um mês de novembro, que foi uma época que eu já estava me sentindo muito mal, fraco, ficando debilitado, foi quando constatei que estava com pneumonia e o médico solicitou os exames que foram enviados para lá. Em seguida veio o diagnóstico”, conta.

De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) analisados pela Agência Tatu, em Alagoas, de 2010 a 2019, 3858 pessoas foram diagnosticadas com Aids. Com a notificação obrigatória do HIV a partir de 2014, em seis anos foram notificados 3991 casos em todo o estado. Confira a distribuição de casos por ano a seguir:

Para avaliar os municípios com maior incidência de Aids e HIV, a Agência Tatu cruzou a base de dados da Sesau (2017 a 2019), com a estimativa populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e calculou quantos casos cada cidade teria a cada 100 mil habitante, facilitando a visualização das informações.

Com isso, a cada 100 mil habitantes a Barra de Santo Antônio teria 112 casos de  Aids, Porto de Pedras 78, Colônia Leopoldina quase 69, Santa Luzia do Norte 68 e  Coqueiro Seco também 68. Já com relação aos casos de HIV por 100 mil habitantes, neste mesmo período, Palestina notificou 139 casos,  Maceió 133, Murici 130,  Teotônio Vilela 108 e Satuba 107. Confira

De 2010 a 2019, a faixa etária com maior quantidade de casos de Aids (1271) é de 30 a 39 anos. Já com relação ao HIV é 20 a 29 anos (1517).

No mesmo período, a maioria dos casos notificados de Aids e HIV são do sexo masculino. 2562 homens foram diagnosticados com Aids (66,4%), enquanto 1296 mulheres tiveram esse diagnóstico (36,6%). Com relação ao HIV, a porcentagem é bem parecida: 61,4% de homens notificados com o vírus (2454) e 38,6% são mulheres (1537). 

O que é Aids?

A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids) é uma doença causada pelo vírus HIV, que atinge o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo.

“Se o paciente tem alguma outra doença associada ao vírus, como tuberculose, sarcoma, diarréia por mais de um mês, entre outras comorbidades, já é considerado Aids. HIV é quando o paciente está infectado, mas não apresenta outras doenças, podendo vir a ter no futuro, mas tudo vai depender do estado dele, do tratamento e diagnóstico precoce”, explica a coordenadora do Programa Estadual de Combate às IST, Sheila dos Anjos.

O infectologista Reneé Oliveira atua no Bloco I do PAM Salgadinho, serviço especializado da Secretaria de Saúde de Maceió, desde 2004. Ele conta que após a contaminação com o vírus HIV, a pessoa pode passar um longo tempo sem apresentar nenhum sinal ou sintoma. “Nós chamamos de caso latente. Algumas pessoas em um ou dois anos já começam a apresentar um quadro compatível com HIV e Aids, outras demoram muito mais anos”. 

Infectologista Renèe Oliveira atua desde 2004 no PAM Salgadinho. Foto: Graziela França/ Agência Tatu

Esses sinais e sintomas podem passar despercebidos por se assemelharem aos de doenças comuns, como a gripe. “Inicialmente, com pouco dias de contaminação, o paciente tem um quadro muito parecido com a gripe, dor de garganta, febre, dor de cabeça, dor no corpo, aparecimento de gânglios na região cervical, que vão embora sem deixar nenhum vestígio. À medida que o tempo vai passando, essa pessoa começa a  apresentar sempre alguma coisa, tipo uma pneumonia, uma sinusite, uma herpes-zóster, até chegar no que a gente chama de Aids propriamente dito”, informa.

Ainda segundo o infectologista, o intuito hoje é identificar todas as pessoas que são portadoras do HIV para iniciar um tratamento precoce, obtendo assim qualidade de vida e quebrando a cadeia de transmissão. “Eu sei que é muito difícil aceitar um diagnóstico de HIV, mas para o paciente é extremamente importante e para o sistema de saúde, muito mais”.

Enquanto usuário que está há mais de 20 anos indetectável, ou seja, sem transmitir o vírus, Cláudio Villarins aborda a importância da utilização correta da medicação. “Um ponto crucial de quem vive com o HIV e Aids é o fato de abandonar o tratamento. As pessoas não se aceitam, se rejeitam, acham que não tem o dever de se cuidar e realmente abandonam [o tratamento]. E quando isso acontece, correm muitos riscos, porque o vírus começa a circular muito mais rapidamente no seu organismo e  a inflamar cada vez mais”, detalha.

O preconceito e os estigmas com relação aos usuários que vivem com HIV também são fatores que desencorajam as pessoas a fazerem a testagem e buscarem seu tratamento, como conta Cláudio. “Existe muito medo dessas pessoas de como vão ser acolhidas, de como vão ser tratadas pelos outros. Outra coisa são as relações humanas e a dificuldade de revelar sua sorologia para uma pessoa que você quer namorar, ficar”. 

Formas de contaminação

As formas de contágio acontecem por meio de relação sexual desprotegida com pessoa infectada, contato com sangue infectado, transmissão vertical (da mãe pro bebê na hora do nascimento) ou durante a amamentação, uso de agulha ou seringa já utilizada por pessoa infectada e instrumentos perfuro-cortantes contaminados.

Testagem e tratamento

Todas as unidades básicas de saúde dos 102 municípios alagoanos contam com a oferta dos testes rápidos para HIV e outras ISTs. No entanto, em virtude da pandemia do novo coronavírus, muitos serviços reduziram as testagens para atender a públicos considerados prioritários, como gestantes e doentes crônicos. “Nos anos anteriores estávamos conseguindo ter um diagnóstico muito mais precoce, mas, por conta da pandemia do Covid-19, isso reduziu esse ano”, menciona a coordenadora do programa estadual, Sheila dos Anjos.

Cláudio também pontua a importância das pessoas realizarem os testes. “Quanto mais cedo ela souber da sua sorologia, melhor. Um dos pontos principais é o medo do diagnóstico. todo mundo passa por isso ‘E se eu tiver o diagnóstico, o que vai ser da minha vida?’. Então é uma pergunta que muitas pessoas fazem nesse momento, mas, inclusive quando se tem o diagnóstico, a pessoa recebe pelo aconselhador e através dele pode se sentir fortalecido para começar a conviver com o HIV/Aids”, aconselha.

Testes rápidos são ofertados nas unidades básicas de saúde de todo o estado. Foto: Graziela França/ Agência Tatu

No interior há apenas dois serviços especializados para o tratamento de pessoas que vivem com Aids e HIV: um em Arapiraca, que atende apenas pacientes da cidade; e outro em Palmeira dos Índios, que atende aos pacientes da 7ª região de saúde. Os usuários dos demais municípios são atendidos em uma das quatro unidades da Capital, que são:

Hospital Dia, no Hospital Universitário (Cidade Universitária);

Bloco I do PAM Salgadinho (Centro);

Serviço de Atendimento Especializado Dr. Marcelo Constant que fica em frente ao HDT (Trapiche) e 

Ambulatório de acolhimento do Lacen (Jatiúca).

Inclusão social influencia na qualidade de vida

Além do tratamento médico, para que as pessoas que vivem com HIV estejam bem, é necessário que sejam incluídas na sociedade. “A qualidade de vida passa não só pelo tratamento, mas também pelo empoderamento, pela sociabilização entre os pares, pela conversa, porque é onde você começa a ser acolhido e vai se sentir bem”, frisa Cláudio, que relembra que sentiu mudança em sua vida quando conheceu a Rede de Pessoas Vivendo com Aids. 

Reuniões da Rede de Pessoas Vivendo com HIV e Aids e acompanhantes. Foto: Acervo Pessoal.

Os programas de prevenção das secretarias municipais e estaduais também assumem papel importante no combate ao vírus e desmistificação de preconceitos. 

“Não é apenas a pessoa sair de casa, pegar seu remédio no SAE, tomar as vacinas, fazer a consulta com seu infectologista. Viver com HIV e AIDS não é só isso, tem muitos outros contextos que as pessoas precisam vivenciar e um deles é ser solidário e acolhedor, principalmente ser acolhido pela família”, conscientiza Cláudio.

As reuniões da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids de Alagoas se reúne mensalmente no Bloco I do PAM Salgadinho, que fica no Centro. Atualmente os encontros contam com cerca de 40 pessoas. 

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