Denúncias de violência contra crianças e adolescentes no Nordeste crescem 31% em três anos

Região registrou mais de 4 milhões de violações de direitos humanos contra o grupo no período analisado

09.02 Disk100 CAPA - Denúncias de violência contra crianças e adolescentes no Nordeste crescem 31% em três anos
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Nos últimos três anos, o Nordeste apresentou um aumento de 31% no volume de denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Segundo levantamento realizado pela Agência Tatu, com base em dados do Disque 100 (Disque Direitos Humanos), foram registradas 822.045 denúncias entre 2023 e 2025.

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Em 2025, o Rio Grande do Norte liderou as estatísticas regionais com uma taxa de 140 denúncias por 100 mil habitantes . Na sequência, aparecem Paraíba e Sergipe, com taxas de 127 e 125 denúncias por 100 mil habitantes, respectivamente.

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Denúncias vs. Violações 

É importante distinguir o número de denúncias do número de violações, já que uma única denúncia pode conter múltiplos abusos. 

Na prática, uma violação ocorre quando um direito fundamental é desrespeitado ou negligenciado. É importante notar que uma única denúncia pode carregar múltiplas violações de direitos humanos, que vão desde agressões à integridade física e psíquica até o cerceamento da liberdade. O levantamento também classifica como violações o descumprimento de direitos sociais, civis e políticos, além de casos de violência institucional e ameaças ao direito à vida.

Os dados revelam ainda que a maioria das violações ocorre dentro da própria residência onde coabitam a vítima e o suspeito. Entre as ocorrências, os ataques à integridade física e psíquica da criança lideram o ranking, consolidando-se como o tipo de violação mais registrado.

Para Mariana Sampaio, presidente da comissão da criança e adolescente da Ordem dos Advogados de Alagoas (OAB-AL), o crescimento dos índices evidencia um tanto o aumento no hábito de reportar as ocorrências e, simultaneamente, a intensificação das violências que vitimizam a juventude.

Mariana Sampaio fala sobre violência contra crianças
Mariana Sampaio | Arquivo pessoal

“O aumento das denúncias ao Disque 100 no Nordeste reflete tanto o fortalecimento da cultura da denúncia e da conscientização social quanto o agravamento de vulnerabilidades que expõem crianças e adolescentes a situações de violência. Mais do que números, esses dados refletem a necessidade de qualificar a prevenção, o atendimento e a proteção integral”, afirma.

Ela destaca que a violência costuma ser repetitiva e são denunciados após múltiplas violências . “Os dados revelam um padrão de polivitimização, ou seja, a mesma criança ou adolescente costuma sofrer múltiplas formas de violência simultaneamente (violência física, psicológica, sexual, negligência, exploração ou violações institucionais). Isso indica que os casos que chegam aos canais oficiais, em regra, já são os mais graves, marcados por violações contínuas e em estágio avançado”.

De acordo com a especialista, a casa se consolida como o principal cenário de violência pela relação de dependência e poder. “A residência se consolida como o principal cenário de violência porque é onde a criança está inserida em relações de confiança, dependência e forte assimetria de poder. A ideia ainda presente de que a dinâmica familiar pertence ao âmbito privado dificulta a denúncia e retarda a intervenção estatal, permitindo que práticas violentas sejam naturalizadas. Além disso, a violência doméstica costuma ser crônica, repetitiva e invisibilizada no cotidiano, o que faz com que os casos só cheguem aos canais oficiais quando já envolvem múltiplas e graves violações de direitos”, afirma. 

Para enfrentar o problema, a análise aponta que não basta uma política única, mas um conjunto articulado de ações. “O enfrentamento eficaz da violência contra crianças e adolescentes exige políticas públicas integradas e contínuas, orientadas pelo princípio da proteção integral. Isso envolve ações de prevenção e fortalecimento das famílias, identificação precoce das situações de risco, articulação efetiva da rede intersetorial de proteção, atendimento especializado e humanizado às vítimas, além da responsabilização dos agressores e da produção qualificada de dados (impossível falarmos em política pública sem levantamento eficiente de dados). Trata-se de uma resposta estrutural, que ultrapassa ações pontuais e demanda atuação coordenada do Estado e da sociedade.”

Disque 100 

A Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH) disponibiliza diversos canais para o registro de denúncias, que podem ser realizadas de forma anônima ou identificada. O serviço funciona 24 horas por dia, inclusive em finais de semana e feriados. Além do Disque 100, é possível denunciar pelo site oficial, WhatsApp (61 99611-0100) ou Telegram. O órgão também oferece acessibilidade via atendimento em Libras em seu portal, e cada registro gera um número de protocolo para que o denunciante acompanhe o andamento do caso.

Metodologia

Estagiária sob supervisão da editoria

Dados abertos

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