Nordeste registrou 160 denúncias de violência obstétrica desde 2020

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Só em Alagoas foram feitos 13 registros deste tipo de violência; especialistas falam em subnotificação

Laço formado entre mãe e bebê (Reprodução: Unsplash)

Texto: Maria Luíza Ávila*
Coleta de dados: Lucas Maia
Visualização: Lucas Thaynan
Edição: Graziela França

Trazer uma vida ao mundo é algo que acontece de maneira única e traz uma experiência particular para cada gestante. No entanto, muitas mulheres acabam passando por situações traumatizantes durante o parto, o que se caracteriza como violência obstétrica.

De acordo com dados coletados do painel de dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, na região Nordeste foram registrados 124 casos de violência obstétrica em 2020. Este ano já foram feitas 36 denúncias em toda a região. Nestes dois anos, Alagoas totalizou 13 denúncias deste tipo de violência. O estado da Bahia registrou o maior número de denúncias, e a Paraíba registrou o menor número. As informações são do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e foram analisadas pela Agência Tatu.

A violência obstétrica é caracterizada por procedimentos e condutas, sejam elas física, psicológica, verbal ou sexual, que desrespeitam e agridem a mulher durante a gestação, parto e pós-parto. Os números de relato espontâneo da violência são pequenos, o que pode ser resultado de desconhecimento do assunto e uma possível subnotificação no número de casos. 

Dainelly Cavalcante é um dos casos deste tipo de violência. Em fevereiro deste ano, quando finalmente chegou a hora de conhecer a pequena Mel, ela esperava ter um parto humanizado, o que não aconteceu. “Rápido, sem indução, no tempo dela. De filme. É um momento que você tá entregue totalmente, que você espera que seja mágico, um momento único. E foi totalmente diferente do que eu esperava”, relatou a mãe em entrevista à Agência Tatu.

Dainelly Cavalcante e sua filha Mel (Reprodução: Acervo Pessoal)

Desde o anúncio da gravidez, a jovem passou a relatar sua experiência com a maternidade em seu perfil no Instagram, Meu apartamento 309, o que incluiu uma série de postagens para documentar o que ela reconheceu como violência. 

“Eu senti ele dando os pontos, ele me costurar e eu senti uma agulha. Eu percebi que tinha tido corte. E eu ouvi ele falar pra enfermeira que tinha feito a episiotomia. Eu me senti completamente inútil por não poder ter nenhum tipo de reação naquele momento”. Esse procedimento realiza um corte entre a vagina e o ânus para ampliar o canal de parto, e sem o consentimento da gestante é considerado violência obstétrica de caráter físico.

“Eu reconheço que sofri violência obstétrica por ter justamente uma irmã que faz enfermagem. Eu pesquisei bastante sobre o assunto e então eu fui para o parto sabendo tudo que seria violência obstétrica caso fizessem comigo, como, de fato, foi feito. Porque no final das contas a gente tá extremamente vulnerável ali, colocando o nosso bem mais precioso no mundo e está completamente nas mãos do médico”, contou Dainelly.

O relato de Dainelly mostra que os dados podem trazer uma subnotificação por falta de conhecimento sobre o que se caracteriza como violência obstétrica, como explica a Nara Rocha, especialista em psicologia perinatal, área que trabalha em torno do nascimento.

“As pessoas têm no profissional da saúde uma referência de status de poder. ‘Ele sabe o que está fazendo, eu não’. O entendimento do profissional de saúde como detentor de poder e conhecimento leva automaticamente à falta de conhecimento sobre os direitos da mulher na gestação. E, com isso, a naturalização do que é errado. Muitas vezes, a mulher é ignorada no centro cirúrgico, são feitas várias intervenções desnecessárias e elas pensam que estão salvando a vida dos seus filhos”, informou a psicóloga.

UMA VACINA EMOCIONAL
Nara reforçou que o parto humanizado é aquele parto centrado no respeito à vontade da mulher. “É muito importante que a equipe de saúde esteja integrada. A gente acaba separando saúde mental e biológica, mas a saúde é a completude. É muito bom quando a gente consegue trabalhar com a obstetra, a enfermeira, a doula, a família”.

Os efeitos de um trauma podem ocorrer tanto no pós-parto imediato, com estresse pós-traumático, como em ataques de pânico, pesadelos, flashbacks, o desejo de não engravidar mais, o humor deprimido e depressão pós-parto. “A gente pensa no enxoval, no quartinho, mas não pensa no emocional. São esses cuidados preventivos, acolhedores, assertivos em torno das emoções desse grande período de transformação dentro do desenvolvimento humano”, explica a psicóloga. 

Dainelly revela que compartilhou sua história para que outras mães reconheçam como é a violência obstétrica e não deixem que a situação se repita. A mãe da Mel também formalizou sua denúncia por meio da Ouvidoria do hospital em que realizou o parto. 

“Quando eu relatei para o meu obstetra, que me acompanhou e fez todo o meu pré-natal, que eu tinha sofrido violência obstétrica, ele simplesmente não tomou nenhuma providência. A gente não sabe se realmente a nossa palavra vai ter o poder ou não. É a minha palavra contra a palavra dele. Ele pode falar que foi uma necessidade. Que tudo que ele fez foi por necessidade. Mas mesmo por necessidade, ele deveria me comunicar ou comunicar ao meu acompanhante, o meu esposo”, finaliza. 

COMO DENUNCIAR
As denúncias para violência obstétrica podem ser feitas por meio do Disque Direitos Humanos (Disque 100), pela Central de Atendimento à Mulher (Disque 180), mantidos pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Também é recomendado o registro do caso na ouvidoria da própria instituição de saúde, identificando o nome e a função do profissional, guardando o número de protocolo.

*Estagiária sob supervisão da Editoria

DADOS ABERTOS | Prezamos pela transparência, por isso disponibilizamos a base de dados e documentos utilizados na produção desta matéria para consulta:
Denúncias de violência obstétrica no Nordeste em 2020 e 2021

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