Praias alagoanas acumulam anos de poluição recorrente, revela levantamento inédito de análises do IMA

Apuração exclusiva de 112 boletins de balneabilidade divulgados pelo IMA revela onde praias alagoanas estão mais frequentemente impróprias para banho

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Cláudio da Silva Júnior trabalha como ambulante na orla de Maceió. Os itens vendidos por Cláudio fazem sucesso entre os turistas, mas ele percebe que o movimento varia ao longo do ano. “No inverno, o movimento cai bastante, não só por causa da chuva, mas pela situação de trechos das praias que ficam impróprios para banho. Se não fosse isso, com certeza seria melhor para os turistas e para nós, que dependemos do movimento de pessoas para ganhar o nosso pão de cada dia”, desabafa.

Já a publicitária Beatriz Omena, que vive em Maceió, evita frequentar as praias urbanas em períodos chuvosos, quando a chance de contaminação aumenta. “Há galerias pluviais que acabam levando esgoto para o mar. Essa situação prejudica muito todos nós, moradores, porque limita o nosso lazer. Por isso, somos obrigados a buscar alternativas em praias mais distantes, no litoral sul ou norte, o que aumenta o custo de deslocamento”, conta.

banhistas balneabilidade
Beatriz Omena e o noivo Jeymes Robert preferem curtir praias no Litoral Sul de Alagoas para evitar prais impróprias

A Agência Tatu analisou dados de 112 boletins de balneabilidade do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) publicados entre 2019 e 2024. Para realizar o trabalho de análise, a reportagem recorreu a técnicas de investigação documental onde foi possível coletar informações de dezenas de arquivos em PDF e construir uma base  de dados com mais de 7 mil registros de balneabilidade das praias ao longo do tempo.

A partir do relatório foi possível identificar padrões de localização e períodos do ano onde as praias estão mais ou menos poluídas. Os dados completos estão disponíveis ao final da reportagem.

Poluição é constante em trechos de praia próximos a foz de rios

Os trechos que estiveram impróprios na maior parte das análises realizadas pelo IMA no período são, na maior parte dos casos, pontos onde há o encontro de rios com mar.

O trecho mais recorrentemente impróprio é a foz do Rio Niquim, na Barra de São Miguel, onde a água era imprópria para banho em mais de 92% dos boletins publicados pelo instituto. Em seguida estão dois trechos localizados na Praia de Maragogi: a Foz do Rio Persinunga, imprópria em 90% dos boletins e a Foz do Rio Salgado, que estava imprópria para banho em 70% das análises.

Maceió aparece na sequência com dois trechos da Praia da Avenida, que recebe as águas do Riacho Salgadinho, com mais de 65% dos laudos sinalizados como impróprios. Maragogi volta a surgir na lista com o trecho localizado na Foz do Rio Maragogi, que esteve impróprio para banho em 62% dos registros.

Praias mais sujas entre maio e agosto

A reportagem verificou que o período da quadra chuvosa acumula a maior parte dos registros de praias contaminadas. Entre maio e agosto, o percentual de praias impróprias para banho ficou superior a 17%. O mês com maior percentual foi junho, concentrando 19,6% dos locais monitorados impróprios para banho. 

Por outro lado, novembro foi o mês que menos registrou poluição nas praias. Somente 8,5% dos trechos litorâneos estavam impróprios para os banhistas ao longo dos anos. 

Praia da Avenida - Praias alagoanas acumulam anos de poluição recorrente, revela levantamento inédito de análises do IMA

Imprópria para banho em mais de 65% dos relatórios do IMA, a Praia da Avenida, em Maceió, é um dos pontos de poluição crônica no litoral de Alagoas.

(Foto: Mychelle Maia/Agência Tatu)

23 praias alagoanas estiveram próprias para banho em todas as análises realizadas

Um dado que chama a atenção é que 23 locais permaneceram seguros para banho em 100% das análises realizadas durante esses cinco anos.

Veja o mapa das praias mais limpas de Alagoas ao longo do tempo:

Monitoramento rigoroso

O monitoramento da qualidade da água é feito semanalmente pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) a partir de 67 pontos analisados ao longo do litoral. São coletadas dez amostras em cada ponto, que representa um trecho da praia, ou seja, não significa que toda a extensão da praia esteja imprópria.

A responsabilidade pela qualidade das águas é compartilhada entre diferentes esferas do poder público. Envolve o IMA, as prefeituras, por meio das Secretarias Municipais de Meio Ambiente, e também órgãos como a Polícia Civil e os Ministérios Públicos Estadual e Federal. De acordo com Paulo Lira, gerente do Laboratório IMA, as prefeituras podem ser notificadas a tomar providências quando são identificadas irregularidades ou riscos à saúde pública.

“A coleta é feita normalmente às segundas e terças-feiras, seguindo o Guia Nacional de Coleta da ANA. O material chega ao laboratório e, em até 24 horas, é feita a análise das bactérias Escherichia coli e coliformes totais. Quando o nível excede o permitido, o ponto é considerado impróprio para banho”, detalha a engenheira química Rosana Correia Vieira, da Gerência do Laboratório de Estudos Ambientais.

Dentro do laboratório, o processo é minucioso. As amostras passam por incubação em meio específico, o Aquateste, que permite identificar a presença de microrganismos a partir da emissão de luminescência. “Com 24 horas já conseguimos a leitura. Quando a bactéria emite o sinal esperado, temos a confirmação de que aquele ponto está impróprio para banho”, explica Rosana. A técnica garante precisão e rapidez, fatores essenciais para que a informação chegue ao público em tempo hábil.

Veja o vídeo:

Além disso, não se trata apenas de detectar ou não a presença de bactérias. Os técnicos também quantificam a concentração desses organismos por mililitro de água, comparando com os parâmetros definidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). É esse número que determina se a praia está dentro do limite considerado seguro ou se representa risco para os banhistas. “Nosso papel é traduzir esses dados em relatórios semanais e disponibilizá-los à população”, completa a engenheira.

Rosana explica que o principal fator para a contaminação é o despejo irregular de esgoto doméstico e industrial. “Se esse esgoto estivesse tratado, não haveria problema. Mas, hoje, principalmente, o descarte irregular é o que torna a praia imprópria”, afirma. Além da influência das chuvas, há pontos considerados crônicos, que apresentam resultados insatisfatórios de forma recorrente.

Para reforçar o compromisso com o monitoramento ambiental e a segurança da população, o IMA/AL divulga semanalmente os resultados das análises de balneabilidade no site e no aplicativo Nossa Praia. A ferramenta permite que qualquer pessoa acompanhe, em tempo real, a condição das praias e lagoas de todo o Estado, ajudando a planejar passeios e momentos de lazer com mais segurança. 

Entre ciência e risco invisível

Gabriel Le Campion, mestre em Oceanografia Biológica e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), lembra que as coletas costumam ser feitas próximas às galerias de águas pluviais, que são a principal via de lançamento de esgoto no mar. O impacto não afeta apenas a saúde humana. “Esses esgotos levam também detergentes, biocidas e metais pesados, que podem matar larvas de corais e alevinos de peixes. Os metais acabam se acumulando ao longo da cadeia alimentar até chegar ao nosso prato”, alerta.

Gabriel Le Campion - Praias alagoanas acumulam anos de poluição recorrente, revela levantamento inédito de análises do IMA
Oceonoagrafo Gabriel Le Campion avalia baneabilidade de praias em Alagoas (Foto: Ascom Ufal)

Os efeitos da contaminação não se restringem à água. O professor lembra que o contato das ondas com o esgoto pode gerar um spray marinho. “As galerias despejam os esgotos exatamente no local onde as ondas rebentam. Isso promove a formação de uma maresia contaminada que pode avançar até 1.500 quilômetros continente adentro. As micro gotículas podem terminar em nossos pulmões e causar infecções, como pneumonias, em pessoas com baixa imunidade”, explica.

Tradicionalmente, a maresia é considerada benéfica à saúde, mas, nesse cenário, os riscos superam os benefícios. Para ele, a situação exige ação imediata. “Se quisermos desenvolver a indústria do turismo, precisamos priorizar a descontaminação das galerias que foram feitas para drenar apenas águas da chuva”, pontua.

Informação e fiscalização

A responsabilidade pela qualidade das águas é compartilhada entre diferentes esferas do poder público. Envolve o IMA, as prefeituras , por meio das Secretarias Municipais de Meio Ambiente, e também órgãos como a Polícia Civil e os Ministérios Públicos Estadual e Federal. De acordo com Paulo Lira, gerente do Laboratório IMA, as prefeituras podem ser notificadas a tomar providências quando são identificadas irregularidades ou riscos à saúde pública. 

Paulo Lira Gerente do Laboratorio IMA - Praias alagoanas acumulam anos de poluição recorrente, revela levantamento inédito de análises do IMA
Paulo Lira é gerente do Laboratório de Estudos Ambientais do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA)

“Atuamos tanto no monitoramento da qualidade da água quanto na fiscalização de empreendimentos e prefeituras que realizam descartes irregulares. Além disso, aplicamos sanções e exigimos medidas corretivas por parte dos responsáveis. O fortalecimento da gestão ambiental nos municípios e o investimento em saneamento básico também são fundamentais para melhorar a qualidade das águas”, pontua Lira.

Ainda assim, especialistas ressaltam que a responsabilidade pelo saneamento é principalmente da gestão municipal. “Galerias de águas pluviais são responsabilidade da prefeitura, que deve fiscalizar e tomar as providências. O problema se torna mais oneroso em rios e riachos porque envolve toda a bacia de contribuição”, explica Gabriel Le Campion.

Caminhos possíveis

Para reduzir os impactos, Le Campion defende ações integradas de saneamento básico, monitoramento contínuo e conscientização social como caminhos para reverter o quadro. “Melhorar e ampliar o saneamento básico, evitar a construção de condomínios que não tenham rede coletora e tratamento de esgotos, principalmente os que levam à verticalização das moradias. Fossas próximas à praia contaminam o freático, e este os leva para o mar”, aponta.

Medidas de educação ambiental, fiscalização e mudanças de hábitos também são citadas pelo oceanógrafo. “É preciso orientar também os donos de pets a recolherem as fezes de seus animais, para evitar que elas sejam levadas pelas chuvas para as galerias. São pequenos gestos que ajudam a diminuir a carga de poluição”, destaca.

Metodologia

Para realizar o trabalho de análise, a reportagem recorreu a técnicas de investigação documental onde foi possível coletar informações de dezenas de arquivos em PDF e construir uma base  de dados com mais de 7 mil registros de balneabilidade das praias ao longo do tempo.

A partir do relatório foi possível identificar padrões de localização e períodos do ano onde as praias estão mais ou menos poluídas.

Dados abertos

Prezamos pela transparência, por isso disponibilizamos a base de dados e documentos utilizados na produção desta matéria para consulta:

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