Em meio aos cenários paradisíacos em rotas turísticas do Nordeste, onde praia, areia e resorts de luxo recebem turistas de todo o mundo, existem mãos calejadas em trabalho análogo à escravidão. São 437 casos espalhados pelo litoral dos nove estados na lista suja do Ministério do Trabalho e Emprego.
A Agência Tatu analisou dados do cadastro de empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão, atualizado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em 6 de abril de 2026. O levantamento constatou casos em 17 municípios banhados pelo mar e inseridos em regiões turísticas do Nordeste.
A lista inclui ocorrências entre 2022 e 2025. O empregador com maior número de trabalhadores resgatados nessa área analisada pela reportagem foi a construtora CSQ Engenharia com atuação em João Pessoa, na Paraíba. Foram 33 trabalhadores resgatados em 2025 na obra do empreendimento Acqua Living, localizado a 280 metros da Praia do Jardim Oceânia.

João Pessoa também é o maior município onde se concentram a maior parte dos casos, sendo 137 trabalhadores resgatados no total, a maioria atuando em construtoras. Entre os estados, 236 trabalhadores foram resgatados no litoral paraibano, o que representa 54% de todos os registros no perfil.
Milagres: destino turístico de Alagoas na lista suja
No litoral de Alagoas, nove trabalhadores foram resgatados na empresa ECM Engenharia Ltd com obras nos empreendimentos Tahaa e Haven Beach, na Rua Beverly Hills, a 500 metros da Praia do Riacho, em São Miguel dos Milagres. O relatório com o resumo da ação foi divulgado pelo MTE e está disponível aqui.
A operação de fiscalização foi realizada entre agosto e setembro de 2024 e constatou que esses trabalhadores viviam em uma “vila” composta por casas inacabadas, insalubres e superlotadas, onde dormiam em beliches improvisados com restos de madeira da obra e colchões desgastados.
Confira os registros fotográficos divulgados pelo MTE:








Além da falta de mobiliário básico e locais adequados para guardar pertences, o relatório registrou que as instalações sanitárias eram precárias, muitas vezes sem água corrente, obrigando o uso de baldes para descarga e impedindo a higiene pessoal básica. As condições de alimentação e segurança também eram críticas, com os operários preparando refeições em fogareiros improvisados em ambientes sujos e sem refrigeração confiável, o que gerava riscos de contaminação e proliferação de pragas.
No canteiro de obras, a fiscalização identificou graves negligências quanto à segurança do trabalho, como a ausência de equipamentos de proteção para atividades em altura superior a dois metros, o uso de andaimes instáveis e a falta de implementação de um Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Adicionalmente, oito trabalhadores não possuíam registro formal, privando-os de direitos trabalhistas e previdenciários fundamentais.
Como consequência das irregularidades, a empresa sofreu pesadas penalidades, incluindo a lavratura de 13 autos de infração e a interdição das atividades em altura e nos andaimes. A construtora foi obrigada a realizar o pagamento imediato de R$ 49.393,35 em verbas rescisórias aos trabalhadores resgatados, além de arcar com R$ 100.000,00 por dano moral coletivo e R$ 24.697,00 por danos morais individuais.
O grupo de fiscalização também emitiu as guias de seguro-desemprego para os resgatados e formalizou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho para garantir a correção das ilicitudes.
A reportagem tentou contato com a empresa ECM Engenharia, mas até a publicação desta matéria, não teve retorno. A Agência Tatu mantém o espaço aberto ao posicionamento.









