Com apenas alguns comandos já é possível fazer músicas com letra e voz, simulando pessoas cantando em qualquer gênero; artistas gráficos têm perdido espaço em favor de imagens geradas por Inteligência Artificial (IA) e sentindo o impacto de serem menos demandados, assim como profissionais de diversas áreas.
É o que nos conta o Professor Doutor Ronaldo Bispo, especialista em cibercultura e comunicação, que comenta como essas novas ferramentas podem impactar artistas que estão frente à capacidade quase infinita que a IA tem de acessar um banco de dados e recombinar elementos artísticos de uma maneira diferente e não necessariamente nova.
“Então, todos aqueles dados, informações, todas aquelas obras, produtos, objetos que alimentaram a IA, são recombinados e uma nova uma versão diferente de uma mistura de tudo aquilo é oferecida. Seres humanos podem fazer isso? Óbvio que podem, mas de forma muito mais lenta de forma muito mais gradual e sem o acesso a tanta informação”, afirma.

Ele explica que nenhum ser humano é capaz de acessar e ter conhecimento de tanta informação como uma IA possui e por isso já existem impactos significativos em seus trabalhos e atividades. Para o professor é preciso então se reposicionar no mercado e aprender a lidar com esses impactos.
O impacto em pequenos negócios
Rodrigo Avelino, cantor e compositor de Alagoas, decidiu em 2018 transformar a música em sua única fonte de renda, desde então, formalizou o negócio como MEI e não voltou atrás.
Usuário de artimanhas para manter frescas as ideias de suas composições, quando uma melodia surge no dia a dia, ele corre para um aplicativo de mensagens e em meio a áudios para si mesmo, registra fragmentos que não pode se perder. O artista conta que em tempos de inteligência artificial, seu processo criativo ainda é marcado pela pluralidade de meios para o fazer da arte, como áudios e anotações digitais, mas tudo sem abandonar a tradição do papel e caneta.
“Às vezes eu escrevo e depois eu preciso pegar um papel e colocar lá, sabe? Eu acho que esse contato, essa coisa manual dá uma energia, é uma outra coisa, a ‘vibe’ é outra. Você pegar o papel, sentar, rabiscar, porque tem essa palavra aqui, risquei, coloquei uma outra por cima, enfim. Eu acho que funciona demais! Então, por mais que a tecnologia avance, nada vai substituir isso, sabe? Essa alma, de você fazer, de mentalizar algo e colocar no papel”, explica.

Para Rodrigo, o que diferencia sua música da produzida por algoritmos é a experiência vivida. Suas composições carregam sentimentos reais, como as duas músicas que escreveu para a mãe, uma enquanto ela ainda estava viva e outra depois de sua partida.
“Eu acho que cada compositor tem essa coisa de colocar no que faz um pouco de si, mesmo que ele não esteja falando dele diretamente, e ele trazer isso para a música é uma forma de falar de acordo com com o olhar dele, com a experiência dele. Então, termina que cada coisa que um compositor faz é algo único, é a visão dele que quando chegam nas pessoas, elas podem ter uma outra visão, outra interpretação”.
A caligrafia que a IA não consegue copiar
O designer Allan Calheiros começou sua trajetória copiando desenhos e não sente vergonha em admitir que antes de criar sua marca autoral, baixava imagens da internet e as transferia para os produtos. Até o dia em que uma artista o denunciou por reproduzir seu estilo sem autorização.
A denúncia, que poderia ter encerrado sua trajetória, virou o ponto de virada. “Aquilo me incomodou, pensei que era preciso criar o meu próprio estilo”, conta. Foi então que a Mimorável nasceu de verdade, com estampas autorais, caligrafia própria e um identidade visual que mistura florais naturalistas com referências culturais de Maceió.
“Comecei a produzir minhas próprias estampas, minha própria caligrafia e a empresa conseguiu ter mais autoridade no trabalho, gerou muito mais desejo de compra. Claro que eu tive um tempo aí de uns 2 anos para poder trazer esse storytelling e mostrar para as pessoas o que era o autoral, o porquê era importante, mas aos pouquinhos, a gente tá aumentando muito as vendas graças a essa decisão que eu tomei lá atrás de não copiar mais outras pessoas, mas sim criar o meu próprio estilo”, pontua.
A caligrafia de Allan que já foi muito criticada na escola por ser “feminina demais”. Hoje, é exatamente o traço que define a identidade da marca presente em canecas, ecobags, bordados e agendas que já chegaram a 1 milhão de visualizações mensais na rede social de compartilhamento de fotos Pinterest.

Produção artesanal e familiar
Allan cuida do design das estampas, da fotografia dos produtos e da divulgação. Isabela, que trabalha na empresa, reproduz as obras e finaliza as embalagens. Sua mãe, Joelma, que havia perdido o próprio negócio de quentinhas em 2019, assumiu o atendimento.
“Pra mim a Mimorável é a esperança. Eu olho pra frente e vejo que tudo é diferente. Eu não olho mais para trás para os meus erros. Eu olho daqui pra frente e vejo o que eu vou acertar”, conta Joelma.
Após fazer diversos presentes com significados marcantes, para ela a Mimorável também foi um escudo contra a depressão. “Eu costumo dizer que a depressão não tomou conta de mim graças a Mimorável, porque todos os dias eu tinha que acordar e me renovar, buscar forças para atender às cllientes e eu me coloco sempre no lugar do outro, tendo empatia pelo outro e assim acabei tendo nesse trabalho uma terapia diária”.
Gestão para enfrentar novos desafios
Para Thêmis Mendonça, analista do Sebrae Alagoas, a equação desse novo desafio vai além de ser formada pelo talento desses artistas. O sucesso é acompanhado principalmente pela boa gestão desses negócios, começando pela formalização desses artistas e gestores do negócio como forma de reconhecimento oficial da atividade, já que isso abre portas para participação em feiras, acesso a políticas públicas e inserção em ações estruturadas de desenvolvimento do setor.
“Nosso trabalho é apoiar esses artistas e artesãos com capacitações, consultorias e acompanhamento, ajudando desde a organização do negócio até temas como precificação, construção de marca, desenvolvimento de produtos com mais valor agregado e estratégias de acesso ao mercado”, pontua a analista.
A instituição enxerga o momento como uma grande oportunidade para que o negócio saiba transformar seus produtos em algo desejado e bem posicionado no mercado ajudando esses produtos a ganharem ainda mais valor, sem perder a identidade. É necessário então ajudar esses empreendedores a entenderem esse valor e saberem comunicar isso para o mercado, para eles o consumidor não compra só um produto, ele compra o significado, a história e a conexão.
“A gente enxerga esse momento como uma grande oportunidade. Quanto mais o mundo avança para a automação, mais as pessoas passam a valorizar aquilo que é feito à mão, que tem história, identidade e autenticidade. E isso é exatamente o que o artesanato e as artes visuais entregam”.
O Sebrae Alagoas entende que a Inteligência Artificial pode ser uma aliada principalmente na divulgação, nas redes sociais e na organização do negócio, mas o diferencial desses artistas está no que é humano, no olhar autoral, no detalhe, na imperfeição que torna cada peça única. “Então, o trabalho manual não perde força, ele ganha ainda mais relevância. Principalmente quando a gente fala de produtos como o filé alagoano, que carrega cultura, tradição e um saber que é passado de geração em geração”.









