Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), realizada pelo IBGE, 41% dos estudantes nordestinos de 13 a 17 anos que já tiveram relações sexuais não utilizaram preservativos na primeira vez. O índice coloca o Nordeste como a região onde os jovens mais se expõem a riscos ligados ao não uso de camisinha no início da vida sexual.
O cenário nordestino empata com o do Norte (41%) e ambos superam a média nacional, que é de 38,3%. No outro extremo, o Sul apresenta o maior índice preventivo, com o percentual de não uso de camisinha caindo para 29,4%.
Ainda segundo a pesquisa, a resistência ao uso do preservativo é mais acentuada entre meninos. 43,1% deles não usaram camisinha na primeira vez, enquanto entre as mulheres o número é de 38,1%.
Início da vida sexual dos estudantes
O levantamento aponta que 30% dos estudantes nordestinos nessa faixa etária já iniciaram a vida sexual, e o número é maior entre homens (35,7%) do que entre as mulheres (24,8%). Há também uma disparidade entre as redes de ensino, enquanto 32,2% dos alunos de escolas públicas já tiveram relações, na rede privada esse índice cai para 17,6%.
A idade de início da atividade sexual também se destaca nos dados da PeNSE. Dos estudantes nordestinos que já tiveram relações, 46,3% afirmaram que a primeira vez ocorreu com 13 anos de idade ou menos.
Falta de educação sexual qualificada
Para a sexóloga Vanessa Albuquerque, a ausência do uso de camisinha pelos jovens nordestinos é perpassada por determinantes sociais, não de incapacidade individual. A vulnerabilidade não é regional por essência, ela é produzida por desigualdades estruturais.
Segundo ela, essa decisão não é irracional, mas fruto de uma combinação de falta de repertório e pressão social. Existe a falta de habilidade de diálogo e planejamento, como a vergonha e medo de falar sobre camisinha, principalmente as meninas. Além disso existe uma lacuna profunda de educação sexual qualificada, o que alimenta uma baixa percepção de risco e o perigo do “não vai acontecer comigo”, somados à impulsividade e à excitação do momento.

“O espaço nunca fica vazio. Ele é ocupado pela pornografia, o principal “educador sexual” atual, ou pelos amigos e colegas com informações distorcidas. Ainda participam as redes sociais com conteúdos superficiais ou romantizados, e a cultura familiar silenciosa ou repressiva. Quando a escola se omite, o adolescente não fica sem educação sexual, ele recebe uma educação precária”.
Especialista defende diálogo aberto
Para Albuquerque, o caminho exige ir além da biologia, a solução deriva de três frentes integradas no nível individual, para desenvolver habilidades de comunicação, autonomia corporal e autoestima.
A outra no nível educacional, onde a educação sexual precisa ser contínua, abordando prazer, consentimento, gênero e limites e no nível familiar, com o diálogo aberto, sem moralização, oferecendo suporte emocional e apoio na construção de valores.
“Ou seja, quando a camisinha é vista só como contraceptivo, ela vira “opcional”. Mas quando é compreendida como proteção de saúde, a lógica muda completamente. Por isso, educação sexual é tão importante, pois não é só sobre informar, é reposicionar o significado da camisinha na cabeça do adolescente, de forma clara e leve”.









