O olho do artista: o fator humano que resiste na memória da arte alagoana

Artistas falam sobre suas obras visuais que vão além do avanço de ferramentas de inteligência artificial generativa

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Na primeira reportagem de nossa série sobre o fator humano das artes frente à onda da inteligência artificial, exploramos a vida de alguns artistas locais que estão reafirmando seu espaço, para manter a essência humana como o diferencial indispensável para o futuro do mercado criativo. Agora continuamos mergulhando na sensibilidade e na identidade cultural de Alagoas para mostrar que, embora os algoritmos possam processar dados em velocidade recorde, eles ainda não conseguem replicar a vivência, o afeto e as histórias pessoais que transformam uma técnica em obra de arte.

Foi após uma aula de arte alagoana em sua pós-graduação de práticas culturais populares, que o fotógrafo Orlando Costa reconheceu sua vontade em querer um lugar na arte para além da fotografia.

Ele contou para a reportagem da Agência Tatu que em uma das visitas do curso conheceu algumas figuras como o João das Alagoas, Dona Irinéia e Cildo Capela. Foi ali que por volta de 2024 entendeu que o barro seria então seu novo lugar no mundo da arte. “Foi do barro que eu tirei a vontade de fazer arte de dentro de mim, coloquei para fora mesmo”.

Arte
Ceramista cria peças do barro desde 2024 / Arquivo pessoal

A partir daí, ao definir sua trajetória com o barro, Orlando começou então a produção de cada peça de cerâmica em uma imersão crescente, o artista passou por cursos, participou de exposições e em 2025, formalizou sua prática. Hoje, Orlando produz desde utilitários domésticos até encomendas artísticas para eventos e empresas.

O processo criativo que ele descreve não tem atalhos e é árduo. Começa no rascunho, uma prática de infância que precisou retomar. Passa pela modelagem manual, pela secagem, pela primeira queima, pela aplicação de esmalte ou pigmento, e termina na segunda queima, quando o calor firma as cores na argila. Qualquer descuido na sovagem abre bolhas e uma pequena delas pode explodir toda a peça. 

“E tudo isso sem a ajuda da inteligência artificial, porque não tem como isso ser substituído, não tem como esse tipo de experiência ser substituído quando você quer a manualidade. Eu entendo que a gente tem ferramentas hoje para isso, muitas delas podem facilitar a nossa arte, mas o produto final não tem como ser criado através da inteligência artificial com a estética e a qualidade que a gente observa que foi uma mão humana que fez”, declara.

Foi nesse processo que Orlando desenvolveu uma linguagem própria com elementos marítimos, placas retangulares em 2D e todas as composições que primeiro existem no papel antes de ganhar o físico. 

“Então isso para mim hoje faz parte do meu próximo acesso, entender que a minha manualidade, ela é uma das ferramentas. A minha técnica também, ela é uma das ferramentas, e se eu substituir isso por qualquer outra ferramenta digital, eu não vou conseguir chegar no mesmo resultado, nem no meu esperado, e causaria estranheza em quem já conhece o tipo de traço na argila que eu aplico”.

Construção de camadas

Já a designer Lua Oliveira chegou à ilustração por um caminho diferente, após crescer dentro do mundo da arte, circulando entre grupos de folguedos, artistas visuais, dançarinos e atores. Sua mãe costura, faz crochê e borda. O pai, além de músico, foi sonoplasta e fazia manutenção em instrumentos musicais. 

Na escola, a artista já produzia trabalhos artesanais e de design. Ao chegar na adolescência, a filosofia do “faça você mesmo”, transformou o que era hábito em postura política. “O que eu já fazia de forma orgânica tornou-se uma postura de independência, buscando autonomia e resistência à comercialização da música e da arte. Foi nessa época, que comecei a montar banquinha em eventos com produtos autorais e com ilustrações de amigos”, conta.

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Artista alagoana usa o design como ferramenta de trabalho e também de militância / Arquivo pessoal

Ao chegar na faculdade de design, a ilustração só passou a ter mais uma camada de estrutura técnica, o trabalho se potencializou ainda mais e a artista começou a focar em ilustração e colagem, usando o design não só como uma ferramenta de trabalho, mas também de militância como uma construção que mistura trajetória pessoal, política e estratégia de renda.

Seu processo começa no cotidiano fotografado. “Eu costumo fotografar cenas, objetos ou situações que me chamam atenção, pode ser uma textura, uma composição de cores, uma cena de rua, algo simples mesmo. Essa foto, por si só, já carrega um valor artístico, mas eu uso ela como ponto de partida. A partir daí, entro com ferramentas de design para construir a ilustração. Trabalho bastante com a lógica de camadas, muito inspirada na serigrafia, pensando em cada elemento separado faço estudos de paleta e combinação de cores antes de fechar a peça, porque pra mim a cor não é só estética, ela também comunica intenção, sensação e contexto”, detalha.

Ao falar do seu processo que mistura um olhar sensível com uma construção técnica, Lua fala sobre a ilustração autoral que possui diversas nuances, coisas que a IA não consegue reproduzir de forma real.

“A ilustração autoral carrega tempo, processo, erro, identidade, território e história, coisas que a IA não consegue reproduzir de forma real. E isso tem muito valor, principalmente pra quem busca trabalhos com identidade. Em Alagoas, eu vejo um potencial enorme nisso. Existe uma base cultural muito forte, com mestres e mestras, artistas populares, folguedos, então o artesanal aqui não é só produto, é memória, é continuidade cultural”, pontua.

“Não me vejo fazendo outra coisa”

Bruna Oliveira começou a pintar ainda no ensino médio, e deu continuidade a isso durante a faculdade de Arquitetura. Na época, produzia algumas peças, fazia pintura em aquarela e arriscava alguns traços no digital. Com a chegada da pandemia e com a faculdade em pausa, decidiu levar o trabalho artístico a sério. 

Hoje a arte é sua renda principal. Bruna se formalizou como MEI em 2021 e trabalha com aquarela, guache, acrílica e, nos murais, com gesso de cera preto no lugar do grafite, uma tentativa de transpor para a parede o mesmo resultado estético que consegue no papel.

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Buy começou a pintar desde o ensino médio e hoje vive disso / Arquivo pessoal

“Eu não me vejo fazendo outra coisa, a Buy não tem outra meta de ser uma outra profissional. Eu sou artista até se um dia acabar e eu não tiver dinheiro, realmente, tudo não dê certo, mas isso ainda vai ser parte de mim, sabe? Então, eu acho que o motivo pelo investimento é esse, é porque é uma coisa intrínseca à minha pessoa, à minha personalidade, à minha forma de ver e viver o mundo”. 

Com o tempo, a artista foi desenvolvendo seu próprio processo que começa na pesquisa conceitual. Ela destrincha o tema, faz listas de tópicos, busca referências visuais e textuais. Quando a encomenda é para outra pessoa, pede também a participação dos clientes. Quando é projeto próprio, busca nas fotos da família, em conversas. E a paleta é quase uma assinatura com verde, laranja, amarelo e muitos tons quentes. Todas essas são cores das roupas que usa e principalmente das paredes do seu ateliê, a Casa Duna, espaço cultural que fundou e gerencia no Feitosa, em Maceió.

Segundo Bruna, a Casa Duna nasceu da necessidade de um ateliê fora de casa, mas hoje funciona como espaço artístico, cultural e colaborativo, com dois coletivos ativos, o Clube da Duna, de debate, e o Entrelinhas, de desenho, além de oficinas, eventos e aluguéis para outros artistas. 

“Realmente é um espaço de encontro, tanto das propostas individuais, quanto da Casa Duna, mas também é um espaço aberto para colaboração com outros artistas, outras pessoas que querem fazer esse movimento e que precisam de espaços que às vezes a gente não tem. Então, a Casa Duna é esse lugar e movimento de mudança de fazer, de se encontrar, de movimentar mesmo essa pauta cultural, artística da nossa cidade”. 

Bruna também comenta sobre a chegada da Inteligência Artificial, e diz que pensa no tema sem ansiedade, pois para ela é apenas uma ferramenta que agiliza, não substitui. 

“Então, eu acho que o trabalho da gente, a arte em si, vai continuar sendo muito importante e vai tocar a gente em lugares onde a tecnologia não consegue tocar. Com a identificação, com a reflexão, com o estímulo do debate, ao pensamento crítico; com a arte em fazer a gente se sentir bem. Nenhum ser humano na história da humanidade, nenhuma sociedade conseguiu sobreviver sem fazer arte”.

Problema da aura

Para o professor universitário Ronaldo Bispo, pesquisador de comunicação e cibercultura, a discussão sobre inteligência artificial ultrapassa os limites do mercado e entra em um campo mais filosófico, que é o da perda da “aura” das imagens.

O conceito, formulado pelo filósofo alemão Walter Benjamin, está ligado à unicidade da obra de arte e à sua relação com o tempo. Segundo o professor, a aura nasce justamente das marcas históricas carregadas por um objeto original.

“A aura de uma obra existia porque ela era única, testemunha de um tempo que passou, carregava as marcas desse tempo incrustadas em sua estrutura. Mesmo diante dela, permanecia uma certa distância”, explica. Na visão de Benjamin, continua o pesquisador, a reprodução técnica destrói essa aura, já que elimina o caráter singular e histórico da obra.

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Professor fala sobre a aura da obra de arte / Arquivo pessoal

É justamente essa dimensão que, para ele, as imagens geradas por inteligência artificial nem chegam a possuir. “Não existe aura porque estamos falando de imagens produzidas a partir da combinação de milhões de outras referências, geradas por comandos verbais ou misturas de estilos”, afirma.

Bispo pondera, no entanto, que esse processo de desgaste da aura não começou com a IA. “A Aura já tinha ido com a fotografia, com a televisão, com o cinema, o fato de ter várias cópias do mesmo objeto, repete a sacralização, desaparece o ritual, não há mais a possibilidade de verificação da autenticidade”, resume.

Ainda assim, algumas imagens fotográficas sobreviveram como ícones culturais, mesmo reproduzidas infinitamente. O pesquisador cita retratos de Marilyn Monroe, Elvis Presley e a famosa fotografia de Jânio Quadros como exemplos de registros que mantiveram certa aura simbólica ao longo do tempo.

Já as imagens criadas por IA operam em outra lógica, para ele, que é a da recombinação infinita. “Não tem testemunho histórico, não guarda as marcas do tempo que passou, não está a serviço de um ritual, então, perdemos a aura, mas ganhamos em diversão. Todo mundo pode fazer imagens divertidas, curiosas, engraçadas”, conclui.

Mercado em transformação

Por outro lado, a confiança dos artistas convive com uma realidade que preocupa especialistas. É o que discute Janayna Ávila, professora de Fotografia e Fotojornalismo da Universidade Federal de Alagoas, que destaca que a desvalorização do profissional criativo é um fenômeno em curso e com efeitos que vão além do campo cultural.

“Todos os profissionais vêm sendo desvalorizados com a chegada de IA e, em alguns setores, substituídos. Isso já vem acontecendo com programadores, designers, ilustradores, jornalistas, etc. Se a gente já vem sofrendo uma precarização global do trabalho, imagina agora. É preciso ver também que isso ocasionará um desaparecimento brutal, também em escala mundial, de milhões de postos de trabalho”.

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Profª fala sobre os desafios da IA frente as artes visuais/ Arquivo pessoal

Para ela, o impacto da inteligência artificial vai muito além do mercado de trabalho, atingindo diretamente a nossa saúde cognitiva. “Outra questão é o efeito de tudo isso para o cérebro. A ciência vem atestando que manter a mente ativa durante toda a vida é tão importante quanto fazer musculação. Como manter a mente em atividade se a proposta é que a IA pense por nós? Que nos substitua até mesmo quanto a criatividade é a matéria-prima? Acho que estamos sem enxergar”, alerta. 

Como contrapartida, há sinais de resistência e reposicionamento no mercado por meio da valorização do feito à mão. Esse nicho, contudo, ganha contornos de exclusividade, como ela observa.”As manualidades, os trabalhos artesanais já estão se colocando, pouco a pouco, num patamar diferente. E como tudo gira em torno de dinheiro e valor, estão também ficando cada vez mais restritos a uma parcela que reconhece, valoriza e se dispõe a pagar por essa autoria. E isso não só em trabalhos artesanais, mas também aqueles que não usam, declaradamente, IA”.

Para Janayna é fundamental, ainda, pensar sobre o impacto ambiental do uso de IA, ainda mais em tempos de emergência climática.

Metodologia

Estagiária sob supervisão da editoria

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