Uso de bikes e patinetes elétricos cresce no Nordeste, mas acesso ainda é desigual

Agência Tatu testou bicicletas e patinetes elétricos disponíveis para locação em Maceió e avaliou custos e usabilidade

22.05 Patinete CAPA 2 - Uso de bikes e patinetes elétricos cresce no Nordeste, mas acesso ainda é desigual
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Bicicletas e patinetes elétricos de aluguel ganharam espaço nas regiões turísticas de diversas capitais do Nordeste. Movidos a energia renovável, eles prometem mais autonomia para deslocamentos curtos sem depender de carro ou ônibus. Mas a que tipo de usuário esse serviço realmente atende?

A reportagem da Agência Tatu investigou se esses mini veículos são realmente acessíveis a diferentes perfis de usuários ou se permanecem restritos apenas às áreas turísticas e aos consumidores de maior renda.

Em Maceió, o serviço é operado pela JET Sharing, locadora de equipamentos de micromobilidade elétrica fundada no Cazaquistão e hoje presente em diversos países. Ao observar o mapa de disponibilidade dos veículos da empresa, um padrão chama atenção: patinetes e bicicletas elétricas circulam principalmente próximos a praias, parques, centros históricos e bairros turísticos. 

Na capital alagoana, o modelo se repete. As operações se concentram nas áreas com maior infraestrutura de lazer, que, consequentemente, são os bairros mais nobres da cidade. Os pontos de estacionamento dos patinetes ficam localizados em bairros como o de Cruz das Almas, Jatiúca, Ponta Verde, Pajuçara e Jaraguá, locais que possuem praias, feiras de artesanato, pontos turísticos e principais praças.

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A limitação geográfica, no entanto, não é o único desafio para ampliar o acesso a esses modais. Na prática, o custo do serviço também costuma pesar na decisão dos usuários.

O especialista em mobilidade urbana, Renan Silva, aponta esse como um dos principais fatores para definir a viabilidade desses modais. Segundo ele, bicicletas e patinetes elétricos podem ser economicamente vantajosos em trajetos curtos, especialmente quando comparado às despesas de manter um carro, como IPVA, manutenção, estacionamento e depreciação. Ainda assim, o preço das corridas ou locações pode representar uma barreira para parte da população. 

Professor fala sobre bicletas e patinetes elétricos para locação
Especialista fala sobre bicletas e patinetes elétricos para locação / Arquivo pessoal

“Esses modais são extremamente eficientes para deslocamentos de curta distância, também chamado de deslocamento de ‘última milha’, conectando o usuário ao sistema de transporte de alta capacidade (ônibus, metrô). Se o custo for inferior a um deslocamento de carro por aplicativo para um curto trajeto, ele se torna economicamente racional. Além disso, o cidadão pode optar por adquirir um veículo como esse, no lugar de alugar, e baixar o custo em médio/longo prazos”, afirma.

Mas a eficiência econômica, segundo o especialista, é mais uma parte da equação. A inclusão real desses serviços esbarra em obstáculos como a exigência de acesso digital para utilizá-los e a concentração geográfica em áreas de maior renda.

“Para que sejam de fato inclusivos, as políticas públicas precisam exigir que as operadoras expandam suas áreas de atuação para periferias e que a infraestrutura cicloviária proteja esses usuários, democratizando o acesso”, defende.

Vale a pena mesmo?

“Se esses modais funcionarem de forma isolada, como ‘brinquedos’ urbanos, o ganho para a cidade é mínimo. Se forem integrados em uma rede multimodal, com infraestrutura protegida (ciclovias e ciclofaixas) e conectados ao sistema de transporte público, bem como substituindo deslocamentos motorizados (de uber, por exemplo), eles podem aumentar a eficiência do sistema como um todo, reduzindo os congestionamentos e, consequentemente, a taxa de sinistralidade, já que cidades mais lentas e desenhadas para pessoas são cidades mais seguras”, conclui.

Para Renan, o impacto real desses modais depende menos da tecnologia e mais da forma como eles são integrados à cidade. Segundo o especialista, bicicletas e patinetes elétricos podem contribuir para reduzir congestionamentos e facilitar deslocamentos curtos, mas isso exige conexão com o transporte público e expansão da infraestrutura cicloviária. 

Quanto custa usar um patinete elétrico em Maceió? 

Para responder essa pergunta, a reportagem da Agência Tatu realizou duas corridas utilizando o serviço da Jet Sharing. O trajeto começou no bairro de Cruz das Almas, na parte baixa de Maceió. A proposta era encontrar um dos veículos disponíveis e seguir até um destino próximo. 

Depois de alguns minutos procurando por um dos equipamentos, a equipe encontrou um patinete estacionado nas proximidades de um hotel da região e decidiu seguir até uma churrascaria localizada a cerca de 850 metros. Segundo o Google Maps, o percurso levaria aproximadamente 12 minutos a pé. 

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Antes mesmo da corrida começar, o uso do serviço exigiu conexão com internet móvel, download do aplicativo, cadastro com CPF e número de telefone, além da recarga prévia da carteira digital da plataforma. Após aceitar os termos de uso, o aplicativo também informava que o veículo só poderia ser utilizado por maiores de 18 anos, mas outras regras listadas em redes sociais do aplicativo não foram mostradas, como o uso de capacete e a limitação de uso de uma pessoa por patinete.

Para as viagens, estavam disponíveis as seguintes opções de tarifa: 

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O pacote escolhido foi o de 15 minutos, que custava R$8 e parecia suficiente para o trajeto planejado. No entanto, mesmo após adicionar esse valor à carteira digital do aplicativo, não foi possível concluir a compra. A corrida só foi liberada depois de uma nova recarga, de mais R$10, além da contratação do seguro opcional de R$3. Ao todo, foram depositados R$18 antes mesmo do início do percurso. 

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Primeira viagem

Nos primeiros minutos, houve dificuldade para se adaptar ao funcionamento do veículo, que arrancava rapidamente e exigia equilíbrio e familiaridade com os comandos. Como as instruções disponíveis no aplicativo não eram claras para iniciantes, o percurso levou mais tempo do que o previsto. Em alguns momentos, foi necessário parar e reiniciar a condução até ganhar maior controle do patinete. 

O trajeto, que inicialmente parecia simples, acabou durando 24 minutos, 9 a mais do que o tempo contratado no pacote escolhido. Mesmo após o encerramento dos 15 minutos iniciais, o aplicativo continuou contabilizando a corrida normalmente até o fim do percurso. 

Ao estacionar o patinete em uma área permitida pelo mapa do aplicativo, recebemos o recibo da viagem. Foi nesse momento que surgiu uma das principais dúvidas da experiência, pois o sistema não deixava claro como os valores excedentes estavam sendo cobrados após o término do pacote contratado. 

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Com base no saldo restante na carteira digital, a reportagem calculou que a primeira corrida custou R$17,20. O valor inclui o pacote inicial de R$8, os 9 minutos excedentes cobrados na tarifa avulsa de R$0,69 por minuto e os R$3 referentes ao seguro contratado. 

De volta para casa 

Para retornar ao ponto de partida, a reportagem adicionou mais R$12 à carteira digital do aplicativo e contratou novamente o pacote de 15 minutos junto ao seguro opcional. 

Desta vez, o trajeto durou apenas 7 minutos e ocorreu sem as dificuldades enfrentadas na primeira experiência. Ao final da corrida, o veículo foi estacionado em outra área permitida pelo aplicativo, onde um novo recibo foi emitido. 

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Mesmo utilizando menos da metade do tempo contratado, o valor do pacote foi cobrado integralmente, sem reembolso proporcional ou crédito para uso posterior. O saldo final da carteira indicou que, somadas as duas corridas, os gastos chegaram a R$28,20. 

Após revisar os dados apresentados no aplicativo e consultar informações divulgadas pela própria empresa nas redes sociais, a reportagem identificou que os pacotes funcionam como uma espécie de desconto sobre o valor do minuto utilizado. Quando o tempo contratado termina, a cobrança passa automaticamente para a tarifa avulsa de R$0,69 por minuto. 

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Embora o aplicativo apresente os pacotes como opções fechadas de tempo de uso, a mudança para a tarifa avulsa não aparece de forma clara durante a corrida. 

A empresa não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem até a publicação desta matéria. 

Cobranças indevidas

As dúvidas sobre cobranças e funcionamento do serviço não apareceram apenas durante o teste realizado pela reportagem. Em uma das páginas associadas à JET Sharing na plataforma Reclame Aqui, usuários relatam problemas semelhantes envolvendo cobranças consideradas indevidas, débitos recorrentes no cartão de crédito após o uso esporádico do serviço, além de dificuldades para cancelar pagamentos ou entrar em contato com o suporte.  Também há reclamações relacionadas a falhas no funcionamento do aplicativo e à falha de respostas da empresa aos consumidores. 

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Em outra página associada a reclamações da mesma empresa JETshr.com as cobranças indevidas representam 61% de todas as reclamações registradas. Há também relatos de cobranças duplicadas, falhas no funcionamento do serviço e grande dificuldade de cancelamento ou contato com o suporte. Nenhuma das reclamações colhidas foi respondida até o momento.

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Metodologia

Estagiária sob supervisão da editoria

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