Quatro dos cinco estados com as maiores taxas de homicídios estimados do Brasil estão no Nordeste. É o que mostra o Atlas da Violência 2026, publicação anual do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que reúne e analisa os dados de segurança pública do país, tendo como base o ano de 2024.
O topo do ranking pertence ao Amapá, com 47,1 homicídios por 100 mil habitantes. Logo atrás, o Ceará aparece na segunda posição, com taxa de 43,7. Bahia (42,6), Alagoas (39,8) e Pernambuco (38,6) completam os cinco primeiros, ocupando respectivamente a terceira, quarta e quinta posições.
Em comparação, a taxa de homicídios no Ceará é quase cinco vezes superior à de Santa Catarina, que é o estado menos violento do país, registrando 8,8. Distrito Federal (10,9) e São Paulo (12,8) também estão entre os índices mais baixos.
Entre 2019 e 2024, o Ceará apresentou um aumento de 44,2% na sua taxa de homicídios, passando de 30,3 para 43,7 casos por 100 mil habitantes, nesses últimos cinco anos. Esse é um movimento contrário à média do Brasil que reduziu sua taxa em 8,2% no mesmo período.
Outros estados listados no ranking também apresentaram aumento, como Alagoas que registrou alta de 13,1%, passando de 35,2 para 39,8 casos por 100 mil habitantes no período.
Rotas estratégicas
Para Roberto Moura, advogado criminalista, professor de Direito e diretor do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim), a concentração desses homicídios no Nordeste não decorre de uma única causa. Segundo ele, o fenômeno pode se dividir em três eixos: a disputa por mercados ilegais; a herança histórica do latifúndio, da escravidão e do racismo; e, por fim, a impunidade gerada pelo baixo investimento em investigação policial.
Os números também refletem mudanças na geografia do crime organizado. Segundo Moura, há uma nova rota que interliga a Amazônia aos portos nordestinos para o escoamento de mercadorias.
“O Nordeste deixou de ser um ponta de linha e virou corredor estratégico. Onde se disputa rota, se disputa território, e é nessa disputa que a violência letal se concentra”, explica o especialista, apontando que o controle dessas áreas é o que impulsiona os homicídios.

De acordo com ele, é necessário também ter cautela na análise do número de homicídios, já que o diagnóstico pode ser camuflado pelo salto nas mortes por causa indeterminada e pela subnotificação.
“Antes de comemorar a queda dos números, precisamos saber o que está deixando de ser registrado. O Homicídio não é um dado natural: ele é regulado e desregulado pelos próprios coletivos criminais. A violência letal funciona como uma variável da economia política dos mercados ilegais. Quando um coletivo consolida o controle de um território e de um mercado, matar passa a ser ruim para o negócio, e a tendência é de pacificação relativa, de queda dos homicídios”.
Moura avalia que a redução histórica de homicídios em determinados estados como Alagoas desde 2010 e a recente alta no Ceará são explicadas por essa mesma lógica de mercado. De acordo com a sua análise, o cenário cearense reflete uma reconfiguração nas rotas de armas e drogas que conectam o Nordeste ao restante do país. “Como a guerra é cara e atrapalha o lucro, o crime organizado hoje prioriza o comércio”, comenta o pesquisador, argumentando que o poder público precisa ler as estatísticas a partir da realidade concreta das periferias, e não apenas como planilhas.
Roberto Moura complementa que a expansão das facções também deslocou as disputas territoriais da capital para o interior e o anel metropolitano. “Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, e Itapipoca estão em rotas estratégicas. É exatamente nessas fronteiras de expansão que a violência se intensifica”, explica.
Municípios mais violentos estão no Nordeste
A concentração não se limita aos estados e atinge o nível municipal da região, já que todos os dez municípios com mais de 100 mil habitantes e com maior número de homicídios estimados do país estão no Nordeste.
Entre os municípios analisados, a maior taxa de homicídios estimados foi registrada em Maranguape, no Ceará, que possui 108 mil habitantes e atingiu o índice de 87,2 por 100 mil habitantes. Jequié, na Bahia, com uma população de 137 mil pessoas, ocupa a segunda posição com taxa de 79,4. As posições seguintes, fechando as cinco primeiras do ranking, são ocupadas inteiramente por municípios do Ceará com Maracanaú (74,1), Itapipoca (74) e Caucaia (72,9).
Dessas dez cidades, seis pertencem ao estado da Bahia e quatro ao Ceará. Feira de Santana surge como o município mais populoso da lista com uma população de 657 mil habitantes, apresentando uma taxa de 67 homicídios estimados em 2024. As outras nove cidades, apresentam populações inferiores a 400 mil habitantes, mas ainda registram índices com taxas acima de 60 homicídios por 100 mil habitantes.
Homicídios ocultos
A reportagem da Tatu utilizou a taxa de homicídios estimados do Atlas da Violência, mortes que ocorrem, mas não são registradas como tal pelo poder público, seja por falhas na investigação, classificação equivocada da causa da morte ou simplesmente pela ausência do Estado.
A metodologia do Atlas corrige essa distorção ao combinar dados de registro com modelos estatísticos de estimativa. Esse cruzamento calcula o volume de óbitos ocultados, oferecendo um diagnóstico mais fiel à realidade do que os boletins de ocorrência isolados.