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Rua Luiz de Cerqueira Cotrim, 69

Todos conheciam o senhor Coutinho, da Drogaria Conceição. A função de técnico farmacêutico lhe rendeu o status de cuidador das famílias do Pinheiro por mais de 20 anos. A drogaria foi a maneira que ele encontrou para fazer o que mais gostava: cuidar de quem precisava e ainda sustentar a família, seu maior patrimônio. Pai de cinco filhos, sempre estava em companhia de pelo menos um deles, principalmente depois de ficar viúvo cinco anos atrás. 

De saúde sensível, José Coutinho de Melo tinha 80 anos quando leu em um jornal local que o bairro onde viveu metade da vida estava entrando em colapso e teria que ser evacuado o quanto antes. Na mesma semana recebeu a visita de técnicos da Defesa Civil para avaliar o imóvel. Dias depois ele sofreu um AVC e foi internado. Já no hospital piorou seu estado e foi transferido para a UTI, morrendo exatamente um mês depois, em 23 de abril de 2019.

“Sabíamos da gravidade do que estava acontecendo e justamente por isso adiamos o quanto pudemos a informação de que ele teria de sair da casa, mas infelizmente ele terminou sabendo da pior maneira e aquilo caiu feito uma bomba”, contou a meteorologista Anna Bárbara Coutinho de Melo, filha do idoso.

A casa, construída aos poucos em um terreno comprado com muito esforço, representava a luta de uma vida para dar aos filhos aquilo que ele mesmo não teve.

“Papai era muito enraizado à nossa moradia porque ajudou em cada detalhe. Investiu em materiais de primeira qualidade e tudo que fazia era sempre com muito capricho. Cada pedacinho dessa casa tem algo feito por ele”, falou com carinho Carlos Augusto Coutinho de Melo.

José serviu ao exército e lá conquistou alguma independência financeira. Casou-se aos 24 anos com Maria do Céo e depois de juntar dinheiro fazendo vários tipos de serviços, conseguiu comprar o terreno no Pinheiro e investir na tão sonhada farmácia. Do bairro, os filhos podiam ir a pé até o Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (Cepa), para estudar, o que era prioridade para o casal.

“Quando soubemos pela imprensa que o tremor tinha sido sério, chegamos a conversar com ele e dizer que ele teria de sair e ir morar comigo. Tínhamos espaço e ele ficaria bem, mas ele nunca aceitou o pedido”, relembrou Carlos Augusto. “Ele só sairia daqui para voltar para a Praia de Marceneiro, onde cresceu. Cogitamos essa possibilidade, mas ele partiu antes de conseguirmos realizar”, lamentou.

Para Anna Bárbara, o medo do desabamento foi o gatilho para a piora repentina do estado de saúde do pai. “Com a perda de minha mãe após 50 anos de casamento, ele passou a ficar mais quieto. Quando não estava lendo notícias, estava dormindo”, relembra Anna Bárbara. “Decidi vender minha casa em São Paulo, onde vivia há anos, e voltar a morar com ele. Queria estar mais presente e quem sabe nos mudarmos para Marceneiro”, contou chorando. “ Mas quando consegui organizar tudo e me mudar, era tarde demais”.

O sentimento que ficou após a partida do pai é de melancolia. “Quem autorizou a exploração mineral sem desapropriar uma área claramente urbana? Se tudo tivesse sido feito dentro da Lei, não estaríamos passando por isso”, lamentou Carlos. “O mais revoltante é ouvir os responsáveis por este desastre tentarem se redimir da culpa. Isso é o que mais nos adoece”, acrescentou.

Anna Bárbara segue morando no imóvel, mesmo vendo a vizinhança indo embora. “Nossa casa agora só tem valor sentimental e por isso, enquanto for possível, ficarei aqui”, concluiu.

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Publicado em 11 de dezembro de 2020

 

Reportagem: Dayane Laet

Fotografias: Jonathan Lins

Diagramação: Lucas Thaynan