Como o desastre causado pela extração de sal-gema desestabilizou o solo e a saúde emocional de 50 mil moradores em Maceió
Como o desastre causado pela extração de sal-gema desestabilizou o solo e a saúde emocional de 50 mil moradores em Maceió

3 de março de 2018. A tarde daquele plantão de sábado mal tinha começado quando recebi a primeira ligação no telefone fixo da redação. Do outro lado da linha, um homem com voz trêmula dizia que um tremor tinha acabado de acontecer no Pinheiro, bairro vizinho ao que eu estava, em Maceió, e que o piso da sala do apartamento em que ele vivia com a esposa tinha cedido. Ouvi quase descrente, anotei seu contato e desliguei já procurando o telefone da assessoria do Corpo de Bombeiros. Outra chamada no celular corporativo e mensagens em grupos de WhatsApp chegaram em seguida, simultaneamente, me levando a despertar e perceber que algo de muito sério acabara de acontecer.

Quinze minutos depois e acompanhada pelo motorista, cheguei onde parecia ser o epicentro do suposto abalo sísmico. Antes de desembarcarmos do carro, já percebi uma grande quantidade de pessoas no meio das ruas e nas imediações do Jardim das Acácias, um conjunto de pequenos prédios tradicionais do bairro. Ofegantes, moradores relataram “um terremoto assustador” e me puxavam para ver as rachaduras em seus imóveis, descrevendo um medo estarrecedor. De buracos no subsolo causados por exploração química, passando por desastre natural até castigo divino, o medo, alimentado pela ainda desconhecida causa, gerava todo tipo de hipótese entre os atingidos.

Com ruas largas, pavimentadas e casarões de famílias que viviam ali há anos, o Pinheiro é considerado um bairro de classe média na capital alagoana. Grande parte dos moradores idosos se conhecia, ainda que de vista. A expressão dos rostos que encontrei ali, inicialmente, foi de espanto. 

Posteriormente saberíamos que não só o Pinheiro, mas também os bairros de Bebedouro, Mutange e Bom Parto tinham sido atingidos pelo estremecimento que chegou a 2.5 na escala Richter naquele sábado. Ao retornar às áreas mais atingidas meses depois, percebi que o espanto tinha dado lugar à profunda tristeza causada por doses pesadas de ansiedade e pela incerteza do que poderia acontecer “a qualquer momento”. 

Entre o abalo e a confirmação da causa, o fantasma do desmoronamento de grandes proporções obrigou muitas famílias a se mudarem às pressas, deixando para trás boa parte de suas vidas lapidadas em paredes que formavam um lar antes passado “de pai para filho e de filho para neto”.  Legado suado de uma vida inteira de trabalho que, assombrado pelas incertezas, perdeu valor de mercado repentinamente e passou a hospedar apenas as lembranças de quem nasceu e cresceu ali. 

A instabilidade do solo deixou também em ruínas a saúde emocional dos seus moradores. Alguns, mais idosos, voltavam diariamente para visitar o que antes era seu lar, desenvolveram depressão e não resistiram ao momento difícil. A família, que já lidava com a perda da casa também precisou superar o falecimento de seus idosos que viviam saudosos de seu pedaço de chão. 

Dados confirmados pela Secretaria Municipal de Saúde de Maceió, de um levantamento realizado em 2019, parceria com o Ministério da Saúde com moradores e ex-moradores das áreas atingidas, mostram que mais de 50% dos entrevistados apresentaram indícios de sofrimento mental grave e comprometimento de atividades diárias. Depressão coletiva.

A amostra da pesquisa mostrou que, como uma triste simbiose entre morador e imóvel, ambos sucumbiram à catástrofe e o luto passou a ser vivenciado com frequência. Parte dessas histórias são contadas nesta reportagem, dando rostos aos números amplamente divulgados pela imprensa no decorrer destes dois anos, e mostrando como a sequência de acontecimentos refletiu diretamente nas pessoas que davam vida ao Pinheiro, hoje quase um bairro fantasma.

Conheça algumas histórias

O rádio ligado
O cego que tudo vê
Sem estrutura
Irremediável
Insones

Tragédia anunciada

Tragédia anunciada

O motivo só foi confirmado quase um ano depois do tremor relatado pelos moradores, através de levantamentos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM): a extração do sal-gema pela  petroquímica Braskem, instalada em Alagoas há mais de 45 anos. A exploração, segundo o documento chancelado por mais de 50 pesquisadores, foi feita de maneira inadequada que desestabilizou cavidades subterrâneas, causando o afundamento do solo e as rachaduras.

Confirmada a causa, uma verdadeira corrida contra o tempo foi iniciada, tanto por parte dos órgãos públicos, como pelos moradores que tiveram de buscar outro local para morar ainda que provisoriamente. A locação de imóveis em bairros próximos deu um salto no valor cobrado devido a repentina procura. Do outro lado, a Prefeitura decidiu suspender processos de licenciamento de construções e empreendimentos e o valor dos imóveis das áreas atingidas caiu drasticamente. Obras foram paralisadas e comércios fechados por falta de clientes.

Serviços essenciais iniciaram a fase de treinamentos para grandes catástrofes. Tudo amplamente divulgado pelo Governo de Alagoas e a Prefeitura da capital, como parte das medidas necessárias para tranquilizar a população mais afetada

 

14 de fevereiro de 2019
14 de fevereiro de 2019

Equipes do Corpo de Bombeiros e do Samu realizam treinamento para desastres de grandes proporções

16 de fevereiro de 2019
16 de fevereiro de 2019

Simulado de desocupação é realizado no Pinheiro, mas não alcança metade dos moradores das áreas mais afetadas. Idosos e deficientes físicos são os que sentem mais dificuldade para seguir as orientações dos voluntários

21 de fevereiro de 2019
21 de fevereiro de 2019

Um grupo de peritos criminais de Alagoas, incluindo legistas do Instituto Médico Legal, recebem capacitação para atuar em desastre em massa em Sergipe;

04 de julho de 2019
04 de julho de 2019

Profissionais de saúde da capital são treinados por Membros da Força Nacional do SUS e da Defesa Civil Nacional para atender um grande número de vítimas. Nos bairros afetados há hospitais e Unidades de Saúde da família, para onde os moradores devem ser levados no caso de uma tragédia.

5 de setembro de 2019
5 de setembro de 2019

Corpo de Bombeiros estuda implantação de pista de treinamento para resgate em estruturas comprometidas.

 

A medida que autoridades divulgavam treinamentos, simulação e preparação para o desastre que, segundo estudos, ainda pode acontecer a qualquer momento, os moradores dos bairros afetados desenvolveram graus diferentes de ansiedade. Quem não estava sofrendo com alguma preocupação, passou a sofrer.

Duas pesquisas foram realizadas com o objetivo de analisar a condição de saúde e percepção de risco dos moradores e ex-moradores dos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro, os três mais afetados. O resultado indicou que mais da metade dos entrevistados apresentavam sofrimento mental grave e tiveram sua atividade diária comprometida por causa da situação do bairro a partir de março de 2018. Dos entrevistados, 61,1% eram mulheres e 35,9% homens, com idade média de 51 anos.

Os questionários foram aplicados pela Prefeitura de Maceió, através da Secretaria Municipal de Saúde, em parceria com o Ministério da Saúde, que enviou uma equipe para Alagoas. As pesquisas foram guiadas pela triagem de sintomas de sofrimento mental grave e comprometimento funcional da Organização Mundial da Saúde (OMS), para desastres. O questionário avaliou dados socioeconômicos, perfil populacional, condições de saúde, qualidade e hábitos de vida, além da percepção de risco.

Segundo a SMS, os dados são dinâmicos, uma vez que muitos moradores estão deixando as áreas afetadas com ajuda da mineradora apontada como causadora do problema, que lançou um programa de compensação financeira e de realocação dos moradores.

Chuva: Sofrimento extra

Chuva: Sofrimento extra

 

O período de inverno em Alagoas é marcado por chuvas contínuas, que ocorrem durante o período entre abril a julho. Em fevereiro de 2019 o geólogo Thales Sampaio, Serviço Geológico do Brasil (CPRM), concedeu uma entrevista coletiva pedindo que moradores das áreas consideradas de risco iminente deixassem o local o quanto antes, temendo que o afundamento ocorresse em decorrência do solo encharcado.

“Pode sim acontecer um acidente grave nas áreas críticas sem aviso prévio”, explicou. “A gente sempre fala que a natureza nos dá aviso que alguma coisa vai acontecer, certo? Significa, que no Pinheiro, os condicionantes geológicos, a natureza, a crosta da terra está nos avisando que alguma coisa especial está acontecendo no bairro”, relatou Sampaio, à época.

De acordo com o meteorologista e coordenador da Sala de Alerta da Secretaria de Meio Ambiente de Alagoas, Vinicius Pinho, atualmente, “o volume de chuva que acende o alerta quanto ao solo das áreas afetadas é de 150mm em 72 horas, contínua e de intensidade, ao menos, moderada”. 

S.O.S. Pinheiro

Em meio ao volume de informações (ou a falta delas) que surgiam à medida que os dias iam passando,  o sofrimento mental dos moradores foi ainda mais agravado pelo volume de fake news que começou a se espalhar nos grupos de mensagens. Um grupo de 20 moradores então decidiu criar o S.O.S. Pinheiro, no intuito de filtrar todos os dados que eram divulgados pelos órgãos oficiais e tentar inibir o compartilhamento de informações falsas.

Com o passar do tempo, as manifestações organizadas pelo grupo, hoje chamado de Associação dos Moradores e Comerciantes do Pinheiro, despertaram a atenção da sociedade. Geraldo Vasconcelos, presidente da associação, também acompanha a evolução do problema e a situação dos moradores de outros bairros. “Agora, o S.O.S. abrange não só o Pinheiro, mas também Bebedouro, Mutange e Bom Parto. Quanto mais pessoas para dar apoio a quem precisa, melhor”, disse ele.

1941
1941

Técnicos realizam buscas por petróleo em solo alagoano e encontram sal-gema a cerca de mil metros de profundidade

1970
1970

Um relatório divulgado pelo geólogo Abel Tenório Cavalcante confirma a existência de sal-gema de alta pureza na região de Maceió

1976
1976

Início das atividades de exploração da sal-gema

1981
1981

Salgema faz parcerias com Norquisa e Copene, aumentando mais ainda as atividades de exploração.

1981
1981

Com participação da Odebrecht LTDA no capital, a Salgema muda de nome mais uma vez: Odebrecht Química S.A. No decorrer das décadas, 35 poços com profundidade entre 900 metros e 1.2 mil metros eram usados para a extração do mineral.

1996
1996

Com o processo de privatização do setor petroquímico e ampliação do controle sobre outras empresas, surge a OPP Petroquímica S.A. e a Salgema torna-se a Trikem S.A.

2002
2002

A Trikem se funde com outras empresas do setor e surge a Braskem S.A, que incorporou as operações existentes em Maceió (AL).

2018
2018

Tremor de 2,5 na Escla Richter é registrado pelo Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pelo Observatório sismológico da Universidade de Brasília. Em março, após o tremor, dos 35 poços dois ainda ainda estavam em operação.

2018
2018

Estudos do Serviço Geológico do Brasil apontam que extração de sal-gema foi feita de forma inadequada. Relatório responsabilizou a empresa Braskem pelos danos causados.

2019
2019

Braskem encerra todas as operações nos reservatórios de sal-gema. Contudo, os danos causados pela exploração gerou instabilidade no solo. Segundo a empresa, nove poços foram estabilizados, cinco ganharam sensores que permitem um monitoramento, quatro devem ser preenchidos com areia e há ainda outros nove cujo o plano de fechamento já existe.

Abril - 2019
Abril - 2019

Empresa destina R$ 1.600.000,00 para apoio aos moradores de novas áreas e gastos adicionais como a realocação dos imóveis incluídos nas chamadas “áreas de risco”.

Apoio às vítimas

Apoio às vítimas

Das 4.500 famílias que constam no termo de acordo assinado em janeiro deste ano por autoridades e pela  Braskem, 2.618 já deixaram suas casas, recebendo auxílio financeiro de R$ 5 mil, além do auxílio aluguel de R$ 1 mil por mês.

O termo abrange moradores dos quatro bairros, mas não todos que foram atingidos pelo tremor. Nas últimas semanas, uma ampliação da área de desocupação, com a inclusão de 1.918 imóveis conforme levantamento da Defesa Civil, vem sendo discutida com as autoridades, visando a adequação das medidas nos bairros em comum acordo, o que já era previsto em janeiro..

Para amenizar os danos psicológicos causados causados pelo afundamentos dos bairros, uma Casa de Apoio Psicológico (CAP) foi criada pela Braskem. Localizada no bairro Trapiche da Barra, a unidade está disponível para todas as famílias que foram contempladas pelo Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação. Com a chegada da pandemia da Covid-19, os atendimentos, que eram presenciais, passaram a acontecer à distância. O apoio, agora, chega por meio de uma ligação telefônica ou outros meios digitais.

A quem recorrer?

Diante do relatório final da CPRM, em 2019, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil responsabilizando a Braskem pelos danos socioambientais provocados pela extração de sal-gema. Segundo o órgão federal, seria necessário um valor superior a R$ 20 bilhões para reparar os danos referentes aos bens de natureza coletiva.

O MPF, além de pedir que o valor seja depositado numa conta judicial para garantir o pagamento, montou uma força tarefa envolvendo vários procuradores: Juliana Câmara, Júlia Cadete, Niedja Kaspary, Raquel Teixeira e Roberta Bomfim. Para o MPF, “os danos imateriais atingiram toda a sociedade alagoana, que se viu obrigada a assistir impassível o contínuo e grave aumento de crateras em suas ruas, calçadas e casas, conspurcando [manchando] bairros e notáveis paisagens naturais como o Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba”, disse em nota.

“Pessoas ficaram sem abrigo, comerciantes se depararam com uma brusca perda de receita, muitos tiveram que encerrar seus negócios, trabalhadores foram dispensados, escolas foram fechadas, a própria administração pública se deslocou para bairros mais ‘seguros'”, relata o órgão, que também está atento ao aumento das invasões a propriedades, o que causa ainda danos a integridade psicológica de todos os moradores.

No âmbito estadual, o promotor Jorge Dória, lamenta a situação. “Nós do MP sofremos junto com aquelas pessoas”, desabafou. “Logo após o abalo, antes mesmo da divulgação dos laudos da CPRM, já iniciamos uma ação coletiva pública para que moradores e ex-moradores não tivessem de esperar anos por uma possível indenização e ficassem expostas ao perigo de permanecer em um local que está condenado a ceder, já prevendo o sofrimento mental daquelas famílias”, explicou o promotor, que tenta, por meio da Justiça, dar aos moradores alguma saída emergencial segura.

Ainda de acordo com o promotor, a partir da divulgação do laudo, foi proposto um acordo entre empresa e moradores das áreas atingidas com medidas emergenciais. O valor pago como indenização por residência, no entanto, passa primeiro por um avaliador de imóveis, considerando o custo de mercado imobiliário antes das rachaduras.

“Tudo que fizemos é na tentativa de minimizar o impacto psicológico e evitar perdas mais graves. O sofrimento seria muito pior se essas famílias permanecessem nas áreas de risco”, disse. “Podemos buscar algum tipo de compensação financeira para as vítimas, mas sabemos que é impossível dar um valor real às perdas que cada morador sofreu ao ter de deixar seu lar para trás”, lamentou Dória.

O Governo

Além de promover e executar treinamentos que prepararam a profissionais da saúde, forças de segurança e a população para a tragédia anunciada, o Governo de Alagoas tem trabalhado em parceria com o Ministério da Saúde e a Prefeitura de Maceió para tentar acolher e atender quem precisa de cuidados psicológicos. Todos os esforços se concentram no Comitê de Operações Emergenciais em Saúde, criado unicamente com esse foco.

Até hoje a Prefeitura de Maceió segue com os atendimentos psicológicos oferecidos por meio dos Centros de Atenção Psicossocial, que começaram em 24 de setembro de 2018. A Defesa Civil do município, por outro lado, tem atualizado um mapa com a localização e intensidade das rachaduras que continuam aparecendo – para tristeza e desespero dos moradores que ainda moram na região afetada. Em nota, a pasta disse que tem trabalhado para otimizar os cuidados e levá-los até os moradores onde quer que eles estejam.

A Defensoria Pública, que faz parte da Força Tarefa que tenta dar um pouco de dignidade aos moradores que precisaram deixar suas casas, continua atenta a situação. “Os problemas psicológicos estão sendo tratados individualmente no momento em que o morador entra em contato com a central do morador. Vários acompanhamentos foram requisitados pela Defensoria e fomos prontamente atendidos, não havendo até o momento reclamações de falta de assistência”, afirma o órgão.

O que diz a Braskem

Segundo nota, a Braskem informa que tem prestado atendimento às famílias afetadas com o desastre no Pinheiro e demais bairros atingidos. “A Braskem implantou uma Casa de Apoio Psicológico (CAP), no bairro Trapiche da Barra, disponível para todas as famílias atendidas no Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação. O serviço é gratuito e estruturado para atender o núcleo familiar. As conversas com o psicólogo são um apoio importante no processo de compreensão de questões emocionais, comportamentais e de relacionamento. Antes da pandemia de Covid-19, os atendimentos aconteciam na CAP ou em domicílio, no caso dos pacientes com dificuldade de locomoção. Como prevenção ao coronavírus, o atendimento segue sendo feito a distância, por telefone e meios digitais. O agendamento pode ser feito no telefone (82) 98210 5902. A privacidade e sigilo do atendimento é total”.

 

A empresa explica ainda que “segue realizando estudos para entendimento das causas do fenômeno geológico que vem atingindo os bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto. A empresa mantém o monitoramento permanente no entorno dos 35 poços de extração de sal, todos já desativados. Esse sistema está sendo ampliado e os dados coletados são disponibilizados para as autoridades”.

“não tinha teto, não tinha nada”

“não tinha teto, não tinha nada”

Caminhando pelas ruas e avenidas do Pinheiro em uma rara tarde de temperatura amena na capital alagoana, demos de cara com uma rua sem saída que terminava em uma estrutura que já foi o lar de alguém. Não havia porta ou teto. Ao nos aproximarmos, vimos que estávamos no pico do platô do bairro. Daquele ponto em diante, há uma grande encosta que desce e finda no Mutange, bairro nascido às margens da Lagoa Mundaú.

Subimos na estrutura da casa, um sobrado com escadas que levavam a um primeiro andar. Do alto, a vista da grande lagoa, adornada por raios de sol poente que refletiam na água e centenas de outras casas sem teto, sem nada.

A cena lembrava um cenário pós-guerra. O silêncio, absoluto, só era quebrado pelo estalo dos pedaços de concreto sob nossos pés. Nem animais de rua vimos ali. Nada além da atmosfera suave e ao mesmo tempo pesada que só encontramos em cemitérios. A sensação de luto, real.

Tudo o que restou foram ruínas. As casas foram deixada para trás pelo medo que os moradores tinham de serem engolidos pelo desabamento total do bairro, o que felizmente ainda não aconteceu. As sequelas emocionais, por outro lado, seguem presentes ainda que estejam sendo tratadas.

“A casa carrega em si uma forte simbologia. É lugar de base, estrutura de sustentação, de acolhida e refúgio seguro”, explicou a psicóloga e psicoterapeuta Gestalt Mariana Verçosa. “Vai muito além do espaço geográfico. O lar é importante para reforçar a identidade do morador e toda sua subjetividade, além de contribuir na construção de vínculos sociais e afetivos com os vizinhos”, disse a especialista. “É preciso estar atento às consequências desse abalo, pois ele pode deixar marcas profundas na estrutura emocional dos moradores, principalmente nos mais idosos”.

Como consequência do sofrimento represado, o corpo passa a reagir somatizando suas angústias. “A perda do teto ou a possibilidade de acontecer algo parecido podem levar ao medo excessivo, ao luto e a doses de irritabilidade e raiva. Isso tudo pode refletir em órgãos como o coração, rins, estômago e causar irritações na pele”, explicou Mariana. “Desequilíbrio na pressão arterial, dores no corpo, risco de sofrer AVC ou infarto podem ocorrer em casos mais graves”, acrescentou, salientando que que isso varia de pessoa para pessoa”.

Ainda segundo a especialista, idosos e pessoas que vivenciavam quadro depressivos antes do tremor são os que mais precisam de ajuda. “Na vida do idoso, por exemplo, o que antes era uma garantia para filhos e netos, passa a ser a possibilidade de perder tudo nessa fase delicada da vida”, disse a psicóloga.

“A presença de profissionais que possam dar apoio psicológico e psiquiátrico são extremamente importantes para resgatar essas emoções e ajudar a pessoa a ressignificar sua história em um novo cenário”, concluiu Mariana Verçosa. 

Futuro incerto

Futuro incerto

Com a ampliação das áreas de risco e mudanças estruturais constantes nos bairros afetados inicialmente, ruas e avenidas de grande movimento devem sofrer mudanças no trânsito, assim como as rotas do VLT, que liga a parte alta da capital ao centro da cidade, cortando os bairros cujo o solo não é estável.

Para readequar toda área afetada, um plano com soluções arquitetônicas está em andamento. A intenção, segundo o Ministério Público Estadual, é evitar que novas ocupações aconteçam e ao mesmo tempo permitir que os serviços funcionem de acordo com a nova realidade.

Enquanto nada acontece, é comum ouvir pelas ruas os relatos de luto pelo chão perdido, pelo ente querido que se foi e pela sensação de impotência – esta comum a todos, independentemente do local onde mora – diante do desastre sem dia nem hora para acontecer.

Publicado em 11 de dezembro de 2020

Reportagem: Dayane Laet   |   Fotografias: Jonathan Lins    |    Diagramação: Lucas Thaynan

Publicado em 11 de dezembro de 2020

Reportagem: Dayane Laet

Fotografias: Jonathan Lins

Diagramação: Lucas Thaynan

 

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