A eleição presidencial de 2026 registrou um feito inédito na história do Brasil. Pela primeira vez, o candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu virar o resultado e vencer a disputa no segundo turno. A mudança é fruto do que ocorreu nas urnas de mais de 93 mil locais de votação no Brasil e no exterior.
Lula (PT) saiu de uma desvantagem de 2.224.965 votos no primeiro turno, em 4 de outubro, para uma vantagem de 4.430.191 votos no segundo turno, em 25 de outubro. Na primeira votação, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 56.104.503 votos, contra 53.879.538 de Lula (PT). No segundo turno, o petista somou 64.256.232 votos, enquanto Flávio (PL) obteve 59.826.041.
O levantamento especial da Agência Tatu, baseado nos boletins de urna do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela que a virada não foi fruto de um único evento, mas de um movimento que alterou a cor do mapa eleitoral em diversos municípios do país.
Raio-x do mapa
Para entender melhor onde a eleição mudou, é preciso olhar para cada local de votação. Com o mapa interativo é possível entender que a recuperação de Lula ocorreu através do avanço significativo sobre os chamados “votos em disputa”, a soma dos eleitores de candidatos eliminados no 1º turno, dos que migraram de nulos/brancos e dos que decidiram ir às urnas no 2º turno.
Ao analisar o impacto desse movimento inicial, a cientista política Luciana Santana, destaca o caráter inédito da disputa. “Na minha leitura, essa virada mostra que o segundo turno tem uma dinâmica própria e que a campanha pode alterar uma disputa que parecia encaminhada. Lula reverteu uma desvantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos e terminou com uma vantagem de cerca de 4,4 milhões. Foi a primeira vez, nas eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização, que um candidato terminou o primeiro turno em segundo lugar e venceu a etapa final”.
Segundo a especialista, a virada começou na mudança de postura entre os dois turnos.
“Minha hipótese é que a campanha de Lula recuperou a iniciativa política e conseguiu transformar a percepção de risco de derrota em disposição para participar. O resultado do primeiro turno pode ter funcionado como um alerta para eleitores que apoiavam o presidente, mas estavam desanimados ou pouco envolvidos na campanha”.
Abstenção e terceira via
A especialista detalha os quatro caminhos que permitiram a expansão do eleitorado de Lula sem depender unicamente da troca de lado.
“Há quatro movimentos possíveis: eleitores de candidatos eliminados; pessoas que não compareceram ao primeiro turno; eleitores que haviam votado branco ou nulo; e pessoas que mudaram de candidato entre as duas etapas. O aumento líquido de aproximadamente três milhões de votantes e a redução dos votos brancos e nulos ampliaram o universo de votos válidos disponíveis. Isso ajuda a compreender como uma candidatura pode crescer entre os turnos sem depender exclusivamente da transferência direta de votos do adversário”.
No plano geográfico, essa recomposição superou redutos partidários tradicionais. “Territorialmente, a recuperação também foi ampla. O avanço relativo de Lula em quase 97% dos municípios e as viradas em Minas Gerais sugerem que sua expansão ultrapassou os redutos tradicionais. Minha hipótese é que ele conseguiu reunir tanto apoiadores que precisavam ser mobilizados quanto eleitores sem identificação com o PT que decidiram apoiá-lo na escolha final”.
A especialista avalia que a maioria construída nas urnas reúne diferentes grupos de eleitores, inclusive aqueles com ressalvas ao partido do presidente. “Também é plausível que parte dos eleitores críticos ao governo tenha escolhido Lula diante da alternativa representada por Flávio. A maioria formada no segundo turno pode, portanto, reunir diferentes motivações: aprovação ao presidente, expectativa de melhora, defesa da democracia e rejeição ao adversário. Não devemos interpretar todos esses votos como adesão integral ao governo ou ao PT”.
A batalha das redes
Outro diferencial apontado na análise da disputa foi a articulação entre a comunicação digital e o engajamento presencial. Diferente do primeiro turno, o ambiente virtual no segundo turno operou como um combustível para conversas físicas no dia a dia.
A especialista chama a atenção para a sinergia entre diferentes idades e formatos de comunicação. “Um aspecto importante foi a mobilização de diferentes gerações, com a participação de jovens e idosos nas ruas, nas redes e nas conversas com familiares e amigos. Minha interpretação é que esse encontro aproximou a memória da trajetória de Lula das expectativas de futuro e da defesa da democracia. A transformação digital da campanha também merece destaque: ampliou a circulação de mensagens e criou novas formas de participação”.
A força dessa estratégia esteve, segundo ela, no transbordamento da internet para o olho no olho. “Minha avaliação é que a campanha de Lula conseguiu articular melhor a mobilização digital com a participação presencial. Janones e outros mobilizadores contribuíram para dar intensidade à comunicação e estimular o envolvimento dos apoiadores. Mas a eficácia dessa atuação depende também de quem recebe a mensagem e a leva para suas relações pessoais. Uma conversa entre familiares ou vizinhos pode alcançar pessoas que a comunicação oficial da campanha não consegue convencer”.
O recado histórico das urnas
Concluindo sua análise, a especialista resume as lições e os compromissos que emergem das urnas nesse resultado de 2026 e pontua que nenhuma eleição está decidida na véspera e que a capacidade de organização, convencimento e presença na reta final pode reverter favoritismos consolidados.
“O primeiro recado é que a participação política pode alterar uma disputa até sua etapa final. Para Lula, a vitória traz a responsabilidade de compreender a diversidade da maioria que o elegeu. Governar exigirá responder a essas expectativas com resultados concretos. Para a direita, a derrota exige examinar os limites de sua candidatura sem ignorar a força eleitoral que preservou”.
Estagiária sob supervisão*