Melodia que ecoa pela história de Marechal

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Cidade é berço de artistas e de bandas filarmônicas 

Por Graziela França e Itawi Albuquerque 

Famosa pelo sol, por sua história e belas praias, as singularidades da cidade de Marechal Deodoro, no litoral Sul de Alagoas, vão muito além disso. Lá, o som ecoa alto e forte nas ruas, sociedades musicais e casas. É natural. Está no sangue do deodorense, que passa de pai para filho, de avô para neto, ou até mesmo de um amigo para o outro. De Seu Zezinho do Sax a Nelson da Rabeca. De uma banda filarmônica centenária a outra mais jovem. O certo é que as notas constroem a cidade, que tem esta arte intrínseca na sua história. 

Localizada a 29 km de Maceió, a terra do primeiro presidente do Brasil – que deu o nome ao município- atualmente conta com cinco bandas filarmônicas, que são aquelas mantidas pela sociedade civil. Na cidade fica evidente que a música representa um patrimônio cultural de grande valor, sendo responsável por promover conhecimento, lazer, disciplina e muitas outras características, que proporcionam desenvolvimento e sensação de pertencimento pelos cidadãos. 

A mais antiga Sociedade Musical da cidade é a Santa Cecília. Fundada em 1910 pelo Padre José Belarmino Barbosa, por ela passaram e passam músicos talentosos, que encontram no ambiente um hobby ou profissão. Com cerca de 70 integrantes, de idades entre dez a 43 anos, a filarmônica também conta com uma banda mirim, etapa antes de integrar a principal, além das aulas de música. Nestes segmentos outros membros fazem parte. 

Sede da Santa Cecília, localizada no Barro Vermelho. Foto: Itawi Albuquerque

Essa e outras filarmônicas são responsáveis pela formação musical e pessoal de diversos jovens, que ingressam por influência da família ou interesse próprio. Vivendo em uma cidade onde a cultura da música é contagiante, fica evidente que é difícil ficar longe dela. 

Carlos Henrique é um dos mais jovens integrantes da banda da Santa Cecilia. Atualmente com 13 anos, toca desde os 11, mas começou seus estudos na música aos sete, sempre com seu clarinete.  

Tendo no pai um grande influenciador, ele vê a música como inspiração também para seu irmão de 14 anos. “A música faz muita diferença na minha vida, é algo que eu realmente gosto e pretendo continuar nessa área”, comenta o garoto, que ensaia três vezes por semana. 

O pai de Carlos Henrique, Claudejan Rosendo de Souza, é mecânico e toca há 20 anos na banda. “Eu incentivo eles a participarem, porque ensina disciplina, aí mais pra frente se eles quiserem seguir a carreira, vai depender dos esforços deles. Mas eu incentivo, porque acho que traz uma formação como pessoa”, frisa. 

Carlos Henrique é um dos integrantes mais novos da banda. Foto: Itawi Albuquerque.

Antes de chegar à banda, os alunos precisam estudar durante um tempo para aprender as notas musicais, a escala e como lidar com o instrumento ideal para ele. É o caso de João Pedro, de 15 anos. Diferente da maioria dos colegas, ele é o primeiro da família a tocar um instrumento. Com clarinete em mãos, ele garante que não perde uma aula e espera chegar a compor a banda em breve. 

“Eu estou aqui há um anos e três meses e comecei vendo os meus colegas que sempre falavam, aí eu vim. Eu tenho muitos amigos que tocam aqui e eu moro perto, por isso eu quis vir pra cá no começo. […] A música representa muita coisa, é muito bom tocar e eu ensaio em casa e em todo lugar”, disse o menino .

A orquestra tem como maestro Aurélio Jovino. Na função desde 2011, o militar e integrante da Banda da Polícia Militar, atua na filarmônica há mais de 30 anos. Atualmente, ele também é estudante de música da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e dedica parte de seu tempo como voluntário na Santa Cecília. 

O maestro é mais um dos inspirados pela família. “Meu pai e meu tio estudaram aqui há muito tempo, na década de 60. Isso me influenciou, porque ele me contava histórias de quando ia tocar, nos ensaios com os colegas e isso foi mexendo comigo”, conta. 

A confiança depositada no professor vai além das lições e conduções na música. A disciplina e aprendizado seguem esses jovens em todas as áreas de suas vidas. Outro fator importante destacado pelo maestro Aurélio é o ânimo e pensamento positivo proporcionado pela música.  

“Talvez se eu não fosse músico hoje eu não estaria completo e realizado. Às vezes você está com um pensamento ruim, mas quando você toca alguma coisa, você esquece, limpa a alma. Você não consegue tocar uma música com raiva, é necessário sentar e acalmar a mente ou não consegue tocar. Tem que estar com a mente limpa e a alma transparente”, declara.

Aurélio Jovino é maestro voluntário da filarmônica. Foto: Itawi Albuquerque.

José Flávio de Sena, integrante da diretoria da filarmônica, acompanha sempre de perto os ensaios da banda. Encantado como se ouvisse o som afinado e bem ensaiado pela primeira vez, o militar reformado gosta de contar que, mesmo sem ser músico, a Santa Cecília faz parte de sua história. 

“Marechal é um celeiro de músicos, que acabou exportando talentos para vários municípios alagoanos, para outros estados e até mesmo para o exterior […]E a Santa Cecília é a minha banda de coração, nasci e me criei aqui perto, vendo a banda tocar”. 

Um dos exemplos dessa “exportação” é José Rubens dos Santos, maestro da Filarmônica Bom Jesus, de Matriz do Camaragibe. Filho da cidade de Marechal Deodoro tem uma longa carreira na música, inclusive como integrante da antiga Filarmônica do Teatro Deodoro. Em 1988 foi convidado por Valério Brêda, hoje Bispo da Diocese de Penedo, para estruturar e conduzir uma banda na cidade em que ele era padre na época. 

“Como naquela época a gente não se alfabetizava tão cedo, acredito que comecei com uns dez ou onze anos. Hoje na filarmônica de Matriz eu já coloco crianças de seis anos, mas naquele tempo não entrava logo, porque para aprender teoria musical precisa saber ler”, explica 

O maestro é casado há 46 anos com Maria Aparecida, que também auxilia na administração e organização da banda. “Ela quem manda em tudo lá”, disse entre risos. 

A Filarmônica de Bom Jesus conta com 67 componentes, além dos 250 alunos da escola de música. As crianças e adolescentes estudam desde a teoria musical até chegar a banda. Uma cultura muito forte que o maestro garante que levou de Marechal a Matriz. 

Sinfônica X Filarmônica 

Luiz Carlos Paranhos, presidente da Federação de Bandas e Fanfarras de Alagoas (Febamfal), deixou de cursar engenharia para fazer música na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Hoje, ele atua na federação, que é sem fins lucrativos e se mantém com as oficinas financiadas pelo estado – que paga os professores e o transporte- e parcerias com a prefeitura- para hospedagem e alimentação. 

O presidente da Febamfal explica a diferença entre uma banda de música e uma filarmônica. “Elas possuem o mesmo instrumental, distribuição e formação. A única diferença é administrativa, porque banda de música é mantida pela prefeitura, estado ou federação. Já a filarmônica, pela sociedade civil, ou seja, é filantrópica. A banda de música também é sem fins lucrativos, mas quem paga o maestro, o fardamento e compra os instrumentos é a prefeitura, por exemplo”. 

Segundo Luiz Carlos, ainda é possível que as filarmônicas recebam algum recurso das prefeituras, por trazer um benefício para a cidade. “Não tem programa social melhor, na minha opinião, do que uma banda de música”, conclui. 

Em Marechal, além da Santa Cecília (108 anos), tem ainda as filarmônicas de Carlos Gomes (102), Manoel Alves de França (52), Aconchego (11) e Nossa Senhora da Boa Viagem (9). 

A seguir confira quais municípios alagoanos possuem bandas filarmônicas ou sinfônicas. 


O som do Sax do mestre Zezinho
 

José Romeiro Neto, ou como ele mesmo se apresenta, Zezinho do Sax, é um músico muito conhecido não só em Marechal Deodoro. Com 90 anos, mas com mais animação que muito jovem, ele sai todos os dias nas ruas da cidade tocando seu saxofone. 

“Comecei a tocar com 15 anos e sigo até hoje. Eu já toquei nesse Brasil todo, em Brasília já passei três meses, tá lá na internet até. Pra Juazeiro já fui seis vezes, já fiz até padre chorar dentro da igreja, tocando uma música do Roberto Carlos”, relembra uma de suas muitas histórias.  

Zezinho do Sax sai todos os dias pelas ruas de Marechal. Foto: Itawi Albuquerque

Para os deodorenses, Zezinho e o instrumento são um só, que divertem, encantam e emocionam quem ouve suas valsas, boleros e choros. Ele garante que é o músico mais antigo da região e que o remédio é a alegria e a música, além do fato de nunca ter bebido e fumado. 

Seu Zezinho seguiu os ofícios do pai, que, além de músico, era pescador, outra profissão muito presente até hoje no município. Casado e com seis filhos, sendo três homens e três mulheres, o mestre já integrou algumas das filarmônicas da cidade, tendo sido inclusive maestro.  

E quem pensa que seu Zezinho precisa de partitura para tocar algumas das centenas de músicas que ele sabe, está enganado. Estão todas guardadas em sua memória. Ele atribui aos mais de 75 anos de estrada. “Isso aqui foi um presente que Deus me deu. Só paro quando não puder mais tocar”, comenta emociona o músico. 

Talento que vem da genética

Zezinho e Gabriel partilham a paixão pela música. Foto: Itawi Albuquerque.

A música parece estar no sangue de sua família, como ele mesmo relata. Filhos, netos e bisnetos também seguiram a carreira de músicos ou, ao menos, aprenderam a tocar instrumentos.  Um desses exemplos é o militar do Exército Gabriel de Carvalho Romeiro, neto de Zezinho.

“Eu já gostava de ouvir meu avô e meu pai tocar. E eu sempre gostei de música, parece que é uma coisa que vem de dentro, não é algo que você vai aprender a gostar, já está na raiz”, contou o militar.

O 2º sargento toca todos os instrumentos de sopro, bateria, teclado, piano, entre outros, além de ser produtor musical e desempenhar funções nesta área. Com um talento inato, que ele explica como vindo da genética, quando tinha 13 anos foi condecorado como melhor músico do ano de Alagoas, em 1993.

Entrou no Exército quando tinha 18 anos e morava em Brasília, passou um ano como soldado, sempre tocando na banda militar. Foi quando em 2001 abriu concurso para cabo-músico e Gabriel foi aprovado entre 600 candidatos para atuar na banda do Exército da Presidência da República, o Batalhão da Guarda Presidencial.

“A música me deu tudo que eu tenho, o emprego, as amizades, é uma coisa que não tem explicação. Não existe mundo sem música. Ela transforma qualquer ambiente. Se você está passando por um momento bom na sua vida, você vai ouvir um estilo de música, se estiver passando por alguma dificuldade, outro estilo de música”, pontua o músico e militar, que conseguiu transferência e voltou para Alagoas.

O dom de seu Nelson da Rabeca  

Ao contrário do que aconteceu com Zezinho do Sax, Nelson da Rabeca ingressou no mundo da música mais tarde. Apenas aos 54 anos ele descobriu sua aptidão, que vai além de tocar algum instrumento, mas também de produzi-los. Hoje com 76 anos ele vive da venda dos instrumentos que ele faz e da participação em shows e eventos. 

Nelson da Rabeca aprendeu a tocar sozinho seu instrumento. Foto: Willams Fagner.

O agricultor e trabalhador de um canavial na época  conta que não tinha nem onde morar quando conheceu a música e aprendeu a tocar sozinho. “Eu vi um cidadão tocando um violino na televisão e achei aquilo muito bonito, mas não sabia o nome. E cortando cana, limpando mato, todo sujo de carvão, eu cortei uma madeira e decidi fazer o meu próprio instrumento, terminei fazendo a rabeca”. 

Logo o seu Nelson começou a tocar o instrumento, mesmo sem ter aula com professor de música. “De repente eu toquei três músicas do Gonzagão. Eu trabalhava quatro dias no canavial e sábado e domingo eu ia pra Praia do Francês. O dinheiro que eu ganhava de meio dia pra quatro horas da tarde, era mais que dentro de um mês trabalhando no campo”, relembra. 

Depois começaram os shows em Maceió, Salvador, Fortaleza, Recife, São Paulo. Até chegar a tocar no inverno norueguês.  

“Em todo canto eu já toquei. Na Noruega foi assim, um ‘galegão’ de lá veio aqui porque a mulher dele tem família em Maceió. E lá tinha algum conhecido meu, que disse que se ele viesse pra cá e não me conhecesse, não tinha feito nada. Aí ele trouxe um saxofone e perguntou se a gente poderia tocar”.  

Durante o tempo em que ficou na Noruega, seu Nelson fez dois shows e se apresentou em uma rádio. “Eu nunca toquei com um cara como ele, tudo que eu tocava ele acompanhava. Toquei na rádio de lá, com mais 50 músicos, eu na frente e eles me acompanhando. Foi festa. Eles lá não entendem minha fala, mas pra acompanhar tocando deu certinho”, relata. 

Rabeca confeccionada por Nelson, que também vende os instrumentos. Foto: Willams Fagner

Considerado pelo Secretaria Estadual de Cultura (Secult) Patrimônio Vivo de Alagoas desde 2009, o mestre rabequeiro já gravou quatro cds e dois dvds. “Deus me deu o dom de tocar e eu só tenho a agradecer, porque sou muito feliz”, contou Nelson que agora também toca e produz cavaquinho em madeira e “cuia”. 

Casada há 58 anos com Nelson da Rabeca, Benedita Duarte é uma grande incentivadora do músico. Sempre o acompanhando em suas viagens, cantando, ensaiando e compondo com ele. As aventuras que ela mais tem recordações são das viagens feitas juntos por meio da música. 

“Passamos dois meses e 26 dias só andando pelo Brasil. Já fomos no programa do Jô Soares, do Márcio Garcia e o Domingo Espetacular veio gravar aqui com a gente. E eu sempre com ele. Nelson é uma figura, ele coloca na cabeça que vai fazer e faz. Não tem estudo nem nada, mas é um dom que vem de Deus. Eu fiz uma música pra ele falando isso, é muito bacana”. 

Dona Benedita e Nelson da Rabeca são casados há 58 anos. Foto: Willams Fagner

Antes da música, o casal, que tem dez filhos, nem imaginava que as coisas poderiam mudar tanto. “Quando passava um avião enquanto eu pescava na lagoa, eu olhava pra cima e pensava que nunca teria coragem de andar em um daquele. Hoje em dia eu acho melhor que andar de carro”, confessa entre risos dona Benedita. 

Tanto o mestre Nelson da Rabeca, como dona Benedita são gratos por tudo que a vida proporcionou para eles. “Primeiro a gente agradece a Deus, mas depois dEle, a música pra nós é tudo. A casa, o pão de cada dia, o conhecimento com gente de bem, nós temos tudo que precisamos. E quando a gente chega no palco não existe mais problema”, finalizou a esposa do rabequeiro. 

Faz Sol Lá Sim: a musicalidade de Marechal nas telas do cinema 

Durante a edição de 2014 da Festa Literária de Marechal Deodoro (Flimar) , evento tradicional que acontece todos os anos na cidade, o produtor cultural Claufe Rodrigues se deparou com esse cenário musical da cidade. Poeta, jornalista, compositor e cineasta, ele garante que não conseguiu ignorar o que viu e ouviu.  

“Para um visitante, é um deslumbre andar pelas ruas e ouvir ensaios esparsos por trás das paredes das casas, bandas de pífano tocando pelas ruas, o tropel de uma orquestra no final de tarde. […] É um fenômeno mesmo uma cidade tão bonita ser regida pela música, que define os destinos de tanta gente”, relata. 

Bastidores do documentário produzido por Claufe Rodrigues. Foto: Mônica Montone

A partir disso, surgiu a ideia de produzir um documentário sobre essa realidade. Produzido pela Chaplin Filmes em co-produção com a Globo Filmes, vários personagens abordam sua história dentro dessa forte potência que é música em Marechal Deodoro. “O ambiente das filarmônicas tem tudo: aprendizado, convívio social, companheirismo, disciplina e, principalmente, a possibilidade concreta de uma carreira profissional estável, em que você vai fazer aquilo que ama. É mais do que todo mundo deseja na vida”, conta Claufe, que é diretor e responsável pelo roteiro do documentário.   

Faz Sol Lá Sim, que está em fase de finalização e deve ser lançado no primeiro semestre do próximo ano, revela um encanto que pode surpreender até mesmo os deodorenses. Sobre essa realidade, o diretor do longa metragem revela que não conhece no mundo uma cultura musical com as características de Marechal. 

“Talvez na Áustria você encontre alguma situação similar, em termos de longevidade ou quantidade, mas nunca com as características de Marechal. Estivemos várias vezes na cidade ao longo dos três anos de realização do filme e pude testemunhar que até mesmo a vocação para uma arte sofisticada como a música pode ser turbinada pelo meio. O ambiente das filarmônicas garante a harmonização necessária de elementos que permite um aprendizado quase que natural”, completa. 

Preservar a cultura da cidade da música  

Como já foi dito, as bandas de Marechal são mantidas, de uma maneira geral pela sociedade civil, podendo receber algum tipo de recurso das prefeituras e estado por meio de editais ou outras formas de contribuição. 

De acordo com a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), houve a promoção de editais para o incentivo da produção musical alagoana, além da contribuição por meio da autorização de processos demandados pelos próprios músicos. A Secult ressalta ainda que a superintendência de Formação e Difusão Cultural está desenvolvendo um projeto específico categoria “filarmônica/fanfarras”, que é uma ação do Pró-Bandas de Alagoas, com o objetivo de fortalecer as bandas de música e fanfarras.  

Uma parceria com a Febamfal leva atividades para cidades alagoanas, promovendo formação, difusão e fomento, como as Oficinas Instrumentais para Músicos.  

 

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