SEM ESTRUTURA

sEM ESTRUTURA

Avenida Francisco Freire Ribeiro, 219

“Isso realmente está acontecendo, ou estou passando mal? ”, questionou o comerciante José Rinaldo Januário de Oliveira, de 46 anos, ao sentir tudo sacudir em casa. “Quando olhei para minha cozinha, percebi que tinha sido real e corri com minha família pra rua. Encontrei vários vizinhos assustados da mesma maneira e percebi que o problema não era na minha casa, mas no bairro todo”, relembra.

O piso da cozinha da residência da família Januário de Oliveira cedeu quase um palmo, sendo impossível permanecer na casa depois tremor. A entrevista foi concedida enquanto caminhávamos pelos cômodos, onde podíamos ver mais rachaduras por todos os lados, inclusive no quintal. “Era tão absurdo que custei a acreditar que era real”, disse Januário.

A casa onde Rinaldo foi criado foi comprada há 33 anos por seus pais e sempre apresentou pequenas fissuras em sua estrutura. Situada na esquina final da rua, da frente do imóvel é possível ver parte da Lagoa Mundaú no bairro de Bebedouro, também atingido pelo abalo. Janelas arqueadas para aproveitar a luz natural, salas amplas e suítes. O imóvel foi reformado várias vezes para acomodar a família confortavelmente.

 “Achávamos que as fissuras eram causadas por um problema estrutural da casa”, relembrou o comerciante. ‘Quando o tremor aconteceu, ainda assim eu não esperava que fosse algo tão sério. Só acreditei quando os técnicos estiveram aqui e condenaram nosso imóvel”, confessou.

A esposa de Rinaldo, Claudia, ao perceber o que estava acontecendo, adoeceu e passou a tomar medicação controlada. “São vários os sentimentos que oscilam em nós: angústia, abandono e até certa dose de desprezo. Não há como substituir a vida que tínhamos aqui”, explicou o comerciante observando uma das janelas trincadas. “É um tipo de luto, porque não tenho palavras para definir melhor”.

Em 2013 a família foi procurada por uma construtora interessada em comprar o terreno da casa para construir um edifício com apartamentos que custariam, em média, R$ 250 mil. “Além do pago pelo terreno, ainda nos ofereceram uma das unidades habitacionais para morar. Não aceitamos porque amávamos nosso chão. Agora, depois de tudo isso, todos os empreendimentos foram cancelados e mesmo que quiséssemos vender, não poderíamos”, lamentou Rinaldo.

Pai, mãe e três filhos se mudaram para a região metropolitana de Maceió, próximo ao aeroporto, mas sempre voltam ao Pinheiro para olhar a casa. Ou o que sobrou dela. “Quando o bairro começou a ser desocupado, vândalos invadiram nosso terreno e levaram absolutamente tudo que tinha valor da casa”, denuncia José Rinaldo. “Esquadrias, ferros, armários e até nossa banheira de hidromassagem foi levada. Não sobrou nada, nem da estrutura”.

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Publicado em 11 de dezembro de 2020

 

Reportagem: Dayane Laet

Fotografias: Jonathan Lins

Diagramação: Lucas Thaynan