A cidade dos carros

Uma raposa cruzava a cidade de canto a canto, observando o provincianismo maceioense enquanto caminhava em estradas barrentas, só sendo incomodada após chegar ao Centro da Capital. Assim, Lêdo Ivo descreveria a Maceió dos anos 1940. Uma cidade semi-rural, onde raríssimas eram as ruas pavimentadas, a população estava longe dos 7 dígitos e veículos automotores

image - A cidade dos carros
Compartilhe

Uma raposa cruzava a cidade de canto a canto, observando o provincianismo maceioense enquanto caminhava em estradas barrentas, só sendo incomodada após chegar ao Centro da Capital. Assim, Lêdo Ivo descreveria a Maceió dos anos 1940. Uma cidade semi-rural, onde raríssimas eram as ruas pavimentadas, a população estava longe dos 7 dígitos e veículos automotores eram escassos.

image 1 - A cidade dos carros
Foto:  Avenida Fernandes Lima (anos 80), Reprodução / Maceió Antiga

Há 30 anos, em 1990, início da série histórica disponibilizada pelo Departamento Estadual de Trânsito de Alagoas (Detran/AL), a capital alagoana possuía pouco mais que 21 mil veículos e, em todo o estado, a frota não chegava a 53 mil automóveis.

Enquanto a população da capital manteve um aumento estável, tendo em 2020 um terço a mais de habitantes que em 1990, a quantidade de automóveis aumentou vertiginosamente. Nestas três décadas, a quantidade de carros nas ruas se multiplicou mais de 17 vezes em Maceió.

Enquanto em 1990 havia uma frota de 21.693 mil veículos, em setembro deste ano o número chegou a 358.708 mil.

Veja o gráfico:

Porém, este aumento não foi proporcional entre os veículos. Ao passo em que o transporte individual foi responsável pela maior parte desse aumento, a quantidade de ônibus e microônibus teve um crescimento relativamente pequeno. Entenda na animação abaixo.

De acordo com o arquiteto e urbanista Renan Silva, que é gerente de estudos de acidentes e infrações de trânsito do Detran Alagoas, esse crescimento não é nada sustentável.

”Há cerca de quatro anos nós fizemos um estudo e havia 25 carros a mais entrando nas ruas todos os dias. À época foi feito um cálculo de quanto isso representaria em demanda de espaço público e chegamos a conclusão de que para absorver esses veículos seriam necessários 60 mil metros quadrados, o que significa que seria preciso construir 10 km de novas vias todos os anos”, pontua o urbanista.

Para o especialista, a entrada de mais carros em circulação acaba forçando o poder público a investir em mais vias, o que incentiva as pessoas a comprar mais carros, formando um ciclo vicioso.

“A cidade tem um espaço limitado, esse espaço precisa ser utilizado da forma mais inteligente e racional possível, e definitivamente lotar esse espaço de veículos não é a forma mais racional que pode ser adotada”, conclui.

O PREÇO DE IR E VIR

Além do custo para o poder público, comprar e manter um carro ou transitar todos os dias por veículos de aplicativos e táxis não é economicamente viável para a maior parte da população.

Para Eddy Atalaia, aficcionado por ônibus e responsável pela página Busologia Alagoana, o transporte público costuma ser a única opção da população menos abastada, já que seu custo é baixo, principalmente quando comparado ao de comprar e manter um carro.

Ele destaca que uma estratégia interessante é mesclar o uso de ônibus e veículos por aplicativo:  “por não ter mensalidade nem financiamento, o transporte por aplicativo oferece uma possibilidade muito interessante para a gente ter flexibilidade no deslocamento, ainda que não seja algo que se utilize todos os dias”. Para Eddy existe um estigma de que o transporte público é algo somente para as classes mais baixas, mas ele lembra que em outros países, como nos da Europa, a população tende a dar preferência aos meios de transporte de massa.

Eddy acredita que, no Brasil, os governantes priorizam o transporte individual em detrimento dos coletivos em suas políticas públicas, e isso é refletido na maneira que as pessoas se locomovem pela cidade.

A Agência Tatu analisou os custos de cada modal de transportes em Maceió e desenvolveu  uma calculadora que possibilita verificar quanto vai sair do seu bolso a cada quilômetro transitado. Confira abaixo.



Clique aqui e entenda a metodologia utilizada no desenvolvimento da ferramenta.

Encontrou algum erro? Nos informe por aqui.

Recomendado para você

Capa da matéria "Apenas um rio do Nordeste tem índice de qualidade da água bom" publicada originalmente na Agência Tatu. Trata-se de uma ilustração digital de um rio, com algumas plantas e um homem observando com binóculos de cabeça para baixo na parte superior da imagem.

Somente um rio do Nordeste apresenta boa qualidade da água

Nenhum rio da região apresentou ótima qualidade da água; dados são do SOS Mata Atlântica
Capa da matéria "6 a cada 10 deputados do Nordeste votaram contra pautas ambientais" publicada originalmente na Agência Tatu

6 a cada 10 deputados do Nordeste votaram contra pautas ambientais

Maioria dos votos é de parlamentares de partidos de direita, extrema-direita e centro
American Public Power Association unsplash - AL mais que triplicou produção de energia solar em 2020

AL mais que triplicou produção de energia solar em 2020

Apesar do aumento de 315%, o estado é responsável por apenas 0,31% do total produzido no país
LICENCA AMBIENTAL - Falta de licença é a principal infração ambiental registrada em AL

Falta de licença é a principal infração ambiental registrada em AL

Dados são das mais de 2.400 denúncias realizados em dois anos