São 187.481 eleitores quilombolas aptos a votar nas eleições de 2026 em todo o país. O número representa um aumento de 96,5% em relação a 2024, quando eram 95.409. O Nordeste concentra a maior quantidade de eleitores quilombolas em números absolutos, mas o Sudeste lidera o crescimento percentual, com alta de 156%. Em Pernambuco, o eleitorado quilombola quase triplicou, levando o estado ao segundo lugar no país em crescimento proporcional.
O levantamento da Agência Tatu considerou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes a 2024 e 2026. O recorte utiliza informações autodeclaratórias, que começaram a ser coletadas em 2022. No caso do Distrito Federal, não há dados referentes ao primeiro ano analisado, já que não são realizadas eleições municipais no território.
Entre as unidades da Federação, o Espírito Santo registrou o maior aumento no período, saindo de 1.558 eleitores quilombolas em 2024 para 7.828 em 2026, um crescimento de 402%.Já Pernambuco apresentou alta de 156% em relação ao número registrado em 2024, quando havia 4.132. Em 2026, o contingente chegou a 11.747. Na sequência aparece Minas Gerais, que passou de 12.712 para 31.487 eleitores, um aumento de 147%.
Dos dez estados com maior crescimento proporcional, cinco são nordestinos. Além de Pernambuco, aparecem Alagoas (138%), Sergipe (117%), Rio Grande do Norte (104%) e Paraíba (97%).
“O voto representa a nossa dignidade”
Entre os eleitores quilombolas de Alagoas está a agricultura e artesã Raimunda Caetano da Silva, de 59 anos. Líder comunitária da Jussarinha, uma das três comunidades quilombolas de Santana do Mundaú, na Zona da Mata alagoana, ela afirma ter consciência dos seus direitos e da importância do voto.
“O voto representa a nossa dignidade, nosso direito. É quando a gente tem que escolher aqueles que mais tarde vão trazer melhorias. Não é voto só porque gosta daquela pessoa, mas depositar a confiança em quem vai olhar pelos quilombolas”, afirma.

Raimunda também percebe na própria comunidade o aumento do número de pessoas interessadas em participar das eleições.
“A gente hoje está sendo visto. Hoje temos as estradas, transporte e outras coisas que acabam incentivando que os quilombolas façam questão de votar. Aqui temos jovens que vão votar pela primeira vez contando os dias para as eleições”, acrescenta.
Nordeste concentra eleitorado; Sudeste lidera avanço proporcional
Em números absolutos, o Nordeste concentra o maior contingente de eleitores quilombolas do país: 95.901. A região também registrou o maior crescimento absoluto, com 44.268 novos eleitores em relação a 2024, quando eram 51.633.
Na variação percentual, porém, o Sudeste ocupa a liderança, com aumento de 156%. A região passou de 17.638 eleitores quilombolas em 2024 para 45.305 em 2026.
O Nordeste aparece em segundo lugar, com crescimento de 85%, seguido pelo Norte, que registrou alta de 83%. Na região, o número passou de 17.895 eleitores quilombolas aptos a votar em 2024 para 32.853 em 2026.
Em 2022, o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que 70% da população quilombola do país estava concentrada no Nordeste. Bahia e Maranhão se destacavam, reunindo, juntos, metade da população quilombola brasileira.
Avanço representa mais visibilidade
Para o cientista político Bhreno Vieira, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o crescimento do número de eleitores quilombolas não significa, necessariamente, que essa população tenha aumentado no eleitorado. Na avaliação dele, os dados refletem principalmente a melhoria na qualidade das informações registradas pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e repassadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A autodeclaração quilombola passou a integrar o cadastro eleitoral após uma resolução de 2022 e ainda está em processo de implementação. Por isso, Vieira recomenda cautela ao relacionar diretamente a alta registrada entre 2024 e 2026 ao crescimento desse eleitorado.

“Se a gente comparar com o Censo Demográfico de 2022, a gente vai ver que todos os estados têm uma sub-representação de eleitores que se autodeclaram como quilombola. A taxa de não informação é, na média, de 80% do eleitorado”, explica Vieira.
Outro fator que dificulta a comparação é que parte da população quilombola não vive dentro dos territórios reconhecidos como quilombolas. Para Vieira, o principal efeito revelado pelos números, portanto, é o aumento da visibilidade dessas comunidades. “Não é um resultado de tamanho, é um resultado muito mais de visibilidade”, pontua.
O cientista político considera que o cadastro representa um avanço no reconhecimento formal dessa população pelo Estado. “O que o TSE está fazendo é dar uma visibilidade ainda maior para esse grupo”, destaca. Ele acrescenta que esse fator pode levar os agentes políticos a voltar mais atenção às demandas específicas das comunidades. “É chamar atenção para que as elites políticas observem que esse grupo está crescendo, é um eleitorado importante, significativo e que exige políticas públicas próprias”, conclui.