Nove em cada dez reais gastos em campanhas no Nordeste são de recursos públicos

Candidaturas da região declararam R$ 654,4 milhões de origem pública e R$ 51,5 milhões tiveram origem privada, até 8 de setembro

30.09 CAMPANHAS CAPA - Nove em cada dez reais gastos em campanhas no Nordeste são de recursos públicos
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A cada R$ 10 já gastos em campanhas eleitorais no Nordeste nas eleições de 2026, um pouco mais de R$ 9 têm origem em recursos públicos. Ao todo, os candidatos dos nove estados da região declararam R$ 705,8 milhões em despesas nas eleições de 2026, dos quais R$ 654,4 milhões foram pagos com recursos públicos, enquanto R$ 51,5 milhões tiveram origem privada, provenientes de doações de pessoas físicas e de recursos próprios empregados pelos candidatos.

Entre as cinco regiões do país, o Nordeste ficou atrás apenas do Sudeste, quando se leva em consideração o valor total, já que a região declarou R$ 694,4 milhões em recursos públicos e R$ 95 milhões em recursos privados. Essa quantia registrada na região nordestina supera em mais de duas vezes a Norte (R$ 295,5 milhões) e a Sul (R$ 282,8 milhões), além de ser mais de três vezes superior a do Centro-Oeste (R$ 188,5 milhões).

Os dados analisados pela Agência Tatu são da prestação de contas parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), realizada levando em consideração a movimentação financeira e os recursos estimáveis em dinheiro desde o início da campanha até 8 de setembro de 2026. A prestação foi realizada  pelos partidos e candidatos entre 9 e 13 de setembro à Justiça Eleitoral, pelo Conta+JE.

Paraíba e Piauí têm maior gasto público de campanha por habitante

Quando considerado o tamanho da população, a Paraíba registra o maior volume proporcional, com R$ 17,70 em recursos públicos por habitante, seguida pelo Piauí, com R$ 17,51, e por Sergipe, com R$ 16,55.

Na outra ponta, o Ceará apresenta o menor valor entre os estados nordestinos, com R$ 8,99 por habitante, seguido pela Bahia, com R$ 10,41, e Pernambuco, com R$ 11,04. O Maranhão, que aparece entre os três estados com maior gasto absoluto, registra R$ 12,46 por habitante.

A distribuição dos recursos privados apresenta outro cenário. A Paraíba registra o maior valor proporcional, com R$ 1,43 por habitante, seguido por Pernambuco, com R$ 1,24, e Piauí, com R$ 1,16. Em valores absolutos, Pernambuco concentra o maior volume de recursos privados, com R$ 11,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 9 milhões, e pela Bahia, com R$ 7,7 milhões.

Principais despesas das campanhas

Os materiais impressos lideraram as despesas de campanha pagas com recursos públicos no Nordeste, com R$ 169,3 milhões, o equivalente a 25,9% do total. A categoria inclui publicidade em santinhos, panfletos e folhetos.

Em segundo lugar, ficaram os serviços prestados por terceiros, que somaram R$ 88,8 milhões (13,6%). A categoria reúne serviços contratados pelas campanhas que não se enquadram em outras classificações específicas de despesas. Entre os exemplos registrados pelo TSE estão assessoria para campanha, projetos de comunicação e honorários contábeis. Por ser uma categoria ampla, o registro não permite identificar, por si só, quais serviços foram contratados.

A terceira maior despesa foi a publicidade por meio de adesivos, com R$ 62,2 milhões (9,5%).

De onde vem o dinheiro?

Esse dinheiro vem principalmente do Fundo Eleitoral (FEFC), uma dotação do Orçamento da União aprovada pelo Congresso em ano eleitoral, criada após a proibição de doações de empresas. Em 2026, são R$ 4,96 bilhões divididos entre 30 partidos. 

A divisão leva em conta votos e cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, com uma pequena parcela repartida igualmente. Por isso, as maiores bancadas ficam com mais. Os partidos também podem usar o Fundo Partidário nas campanhas, desde que sigam as regras de aplicação e prestação de contas. A divisão interna do FEFC entre os candidatos é decidida pela direção nacional de cada legenda.

O financiamento privado das campanhas eleitorais vem de duas fontes: das doações de pessoas físicas e dos recursos dos próprios candidatos, já que empresas são proibidas de fazer doações eleitorais. Cada eleitor pode contribuir com até 10% da renda bruta declarada à Receita Federal no ano anterior, por transferência bancária, Pix ou financiamento coletivo, a chamada “vaquinha virtual”, permitida para pré-candidatos desde 15 de maio. Os candidatos também podem utilizar recursos próprios, desde que respeitem o limite de 10% do teto de gastos do cargo em disputa.

“Os partidos ficaram menos vulneráveis aos grandes financiadores, mas mais dependentes do Estado”

O uso do dinheiro público e a forma como os recursos são distribuídos podem levantar debates. Para o cientista político Renato Francisquini, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o modelo adotado, após a proibição de doações por empresas, diminuiu a influência de grandes corporações, mas gerou novos desafios estruturais para as eleições brasileiras.

De acordo com o especialista, embora a mudança tenha reduzido a vulnerabilidade a escândalos de corrupção e grandes financiadores, ela acabou criando uma dependência excessiva do dinheiro estatal.

“Essa dependência pode ter efeitos negativos ao desincumbir os partidos de buscar apoio na sociedade, por meio de estratégias de financiamento difuso e de pequenos apoiadores. Além disso, pode promover a cartelização do sistema partidário, criando obstáculos para a entrada de novos competidores, novas lideranças e novas ideias”, analisa.

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Especialista fala sobre o impacto na democracia / Arquivo pessoal

Já a regra de distribuição do fundo também acentua as barreiras para novos nomes na política. Embora o cientista político considere justo favorecer representatividades que tenham uma relação com a sociedade civil estabelecidas para evitar que a criação de partidos se torne um “negócio lucrativo”, ele pondera sobre os limites desse modelo.

“Quando a concentração de recursos se torna uma barreira praticamente intransponível para a entrada de novos competidores, impedimos a circulação de lideranças políticas, a renovação do sistema e o próprio pluralismo de ideias, fundamental para um debate público qualificado”, explica.

Por outro lado, o cientista político adverte que o retorno a um modelo com forte peso privado traz riscos históricos comprovados ao processo eleitoral brasileiro. Ele relembra que, tanto no escândalo de 1989 envolvendo o tesoureiro de Fernando Collor, PC Farias, quanto na época das doações empresariais diretas nos anos 2000, o financiamento privado gerou enorme disparidade de poder e trocas de favores por contratos públicos.

Além disso, aponta que o autofinanciamento, a utilização de recursos próprios pelos candidatos, exige tetos rígidos para evitar que o dinheiro individual se torne um fator decisivo no pleito.

Como alternativa de equilíbrio, o especialista sugere o aprimoramento de um modelo misto para assegurar condições mais justas e transparentes nas disputas.

“Um meio-termo plausível seria criar formas de obtenção de recursos privados que impeçam a concentração em poucos e enormes doadores, ao mesmo tempo em que se garanta um financiamento público capaz de assegurar condições mínimas de manutenção dos partidos e das candidaturas”, defende, frisando a importância de manter mecanismos que garantam a competitividade de grupos historicamente sub-representados , como mulheres, negros e indígenas.

Estagiária sob supervisão*

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