Em tempos de alta no combustível, ônibus se tornam alternativa mais acessível

O auxiliar administrativo Willian Carlos, morador do bairro Benedito Bentes, passou a utilizar há dois anos o tão sonhado carro para realizar o trajeto até o trabalho e a faculdade. Naquele momento ele gastava mensalmente em média R$ 200,00 com gasolina. No entanto, os aumentos constantes no valor do combustível durante esse tempo transformaram o sonho em pesadelo, já que pesou R$ 100,00 a mais no bolso, o que fez Willian mudar de planos em abril deste ano.

O universitário deixou o carro de lado e recorreu ao transporte público. A rotina mudou: agora utiliza dois ônibus por meio do sistema de integração para chegar ao trabalho, no Centro. Hoje, Willian reconhece a vantagem, pois influencia diretamente na qualidade de vida. Até setembro deste ano, ele pagava a meia tarifa da passagem que custa R$3,35 na capital para cada trajeto, já que também é estudante. No entanto, com a implantação do Passe Livre Estudantil, Willian não tem mais custo com transporte.

Willian em seu antigo carro, que precisou ser vendido. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Em momentos tão delicados como esse que a gente está passando vale muito a pena trocar o carro por transporte público. Hoje não tenho custo, porque também sou estudante de Direito e tenho o Passe Livre, além do Vale Transporte da empresa onde trabalho. É uma questão de qualidade de vida”, pontua Carlos. 

William não foi o único que se viu obrigado a trocar o transporte particular pelo público por conta dos aumentos sucessivos no combustível este ano. Desde janeiro, a gasolina saiu de um preço médio de R$ 4,76 para R$ 6,54 em Maceió. Mas, assim como o estudante de Direito, outros usuários mais recentes do transporte público ressaltam os benefícios em utilizar ônibus no dia a dia.

Este também é o caso do auxiliar administrativo Wemerson Figueiredo, que se desloca todos os dias do Benedito Bentes para o Farol, onde fica seu trabalho. Desde junho ele resolveu adotar o transporte público. “Eu costumava gastar em torno de R$ 500,00 mensais com combustível, hoje gasto em torno de R$ 150,00 por mês, pois passei a usar o veículo somente aos finais de semana”, conta ele.

Também estudante universitário, Wemerson aderiu ao Passe Livre e passou a ter custo zero com o transporte público durante a semana. Em toda a capital, já são 17 mil passagens diárias oriundas do programa, que oferta 44 passagens mensais para que estudantes da educação básica e superior se desloquem de forma gratuita.

“Apesar das limitações do transporte público em nossa cidade, tem sido mais benéfico usar o transporte público, pela redução nos custos e benefício da faixa azul para driblar o trânsito. Só voltaria a usar o carro em caso de necessidade ou num cenário de redução considerável do preço do combustível”, reforçou Wemerson, apesar de considerar que a quantidade de ônibus ainda é pequena quando comparado com a demanda da população local.

Qual o melhor caminho a seguir? (Foto: Lucas Thaynan/Agência Tatu)

A Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT) garante que acompanha essa realidade apontada por Wemerson. “A SMTT monitora diariamente o progresso das linhas de ônibus de toda capital e realiza os ajustes necessários de acordo com as possibilidades para tornar o percurso das viagens mais rápido e cômodo para a população”, informou o órgão, que implantou duas novas linhas este ano, a 0612 (Forene/Jatiúca via Centro e Ponta Verde) e a 601 (Benedito Bentes/Jatiúca via Rota do Mar). 

Para garantir o atendimento adequado à população, os ônibus passam por constantes fiscalizações realizadas pela SMTT. Somente no mês de outubro, 35 ônibus foram lacrados por mau estado de conservação dos veículos e foram emitidas 195 autuações por irregularidades nas viagens. O Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Maceió (Sinturb) confirma as ações. 

“Além disso, todos os nossos funcionários passam por constantes qualificações no Sest Senat, com temas que abrangem desde a qualidade no atendimento aos passageiros a como lidar com situações de importunação sexual nos coletivos, por exemplo. Por fim, as empresas possuem seguro, e também possibilitam aos passageiros que qualquer problema ocorrido durante as viagens seja relatado diretamente”, relatou o Sinturb.

Diante de qualquer irregularidade, o usuário conta com um canal de denúncias. O contato pode ser feito por WhatsApp pelo telefone (82) 98134-6858 e os registros podem ser feitos a qualquer hora do dia. Há também o Disque SMTT, no número 118, que funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.

Trânsito, saúde e meio ambiente agradecem

Para quem só trabalha, a situação não é diferente. Arnaldo Tavares começou a sentir que o gasto com combustível estava comprometendo a renda bem antes. Há cinco anos, ele decidiu deixar para trás a comodidade do carro próprio para chegar até o trabalho e, desde então, só utiliza ônibus. O supervisor de compras foi mais além do que os jovens William e Wermeson.

Atualmente, além de economizar R$ 232 reais mensais e cerca de 25 minutos do seu tempo, já que utiliza a Faixa Azul no trajeto Tabuleiro dos Martins ao Farol, Arnaldo destaca que a decisão também beneficiou a saúde .

“Faço questão de caminhar diariamente cerca de três quilômetros até chegar no ponto, entre a ida e a volta ao trabalho. Ganho tempo, faço exercício pré-laboral, vejo pessoas, economizo dinheiro e, com meu carro em casa, o meio ambiente agradece”, enumerou Tavares.

A nutricionista Ana Raquel Nobre reforça os benefícios para a saúde de quem realiza atividades físicas frequentes. “As caminhadas servem pra gente conseguir manter um bom ‘gasto calórico’. Caminhadas regulares e pessoas que dão mais passos são mais saudáveis que as outras. Se manter ativo faz as pessoas terem um peso saudável, porque por mais que não façam dieta, conseguem equilibrar a quantidade de caloria que consomem com a que gastam, ajudam a manter a saúde cardiovascular e cardiorrespiratória”, explica.

O superintendente da SMTT, André Costa, também destaca que a adesão dos cidadãos ao transporte público beneficia o fluxo do trânsito. “A mobilidade urbana de uma cidade envolve uma série de fatores e esforços do setor público,  mas também da população com a adesão ao uso do transporte público, que reduz a quantidade de veículos nas ruas e diminui a emissão de gases poluentes. Além disso, auxilia na redução dos congestionamentos, já que menos veículos trafegam pelas vias”, aponta.

Costa reforça que o Município busca ofertar um transporte moderno e seguro. “Iniciativas como a redução no valor da tarifa, o Passe Livre, a implantação do Vamu com o pagamento da passagem com cartões de crédito e débito, carteira digital e smartwatches tornam o transporte público mais atrativo e garantem o ir e vir dos maceioenses e de turistas que visitam a capital”, listou.

Abastecer se tornou 69% mais caro

De acordo com os dados coletados pela Agência Tatu, em Maceió o preço médio da gasolina subiu 69% no último ano, saindo de R$4,50 em novembro de 2020 para R$6,54 em novembro deste ano. Ou seja, R$ 2,04 que pesam no bolso a cada litro abastecido no posto de combustível.

O aumento é ainda mais significativo se levarmos em consideração os primeiros meses da pandemia da Covid-19. Em maio de 2020, o barril de petróleo foi negociado a valores negativos no mercado internacional, fazendo com que a gasolina chegasse a ser vendida a R$ 3,80 nos postos de Maceió.

O economista e professor da Universidade Federal de Alagoas, Cícero Perícles, lembra que o cenário nacional de aumento do valor do preço da gasolina afeta diretamente os usuários dos transportes individuais, como o automóvel e as motos, com renda média e baixa.

“Os proprietários de automóveis de renda alta continuam no seu ritmo normal, sem que o orçamento seja afetado de maneira expressiva, mesmo que morem distantes, mas os que pertencem a segmentos sociais com renda média ou baixa, tendem a diminuir o seu uso. Neste caso, uma parte passa a usar o transporte de aplicativos, táxi ou o ônibus”, explica o economista.

Pela análise de Cícero Péricles, as alternativas para fugir do consumo de gasolina vão continuar. Isso porque a perspectiva é de que os preços continuem aumentando. “O principal problema é a Política de Paridade de Importação (PPI), a política da Petrobras, adotada em 2017, com a vinculação dos preços internos ao valor do barril de petróleo no mercado internacional, assim como ao valor do dólar. Com isso, os preços dos combustíveis sofrem influência pesada das subidas do dólar e do valor do barril de petróleo”, pontuou.

Ele detalhou ainda a dinâmica de preço dos combustíveis. “Como o valor do barril vem subindo, as refinarias reajustam seus preços e repassam para os distribuidores e, como o valor do dólar está alto, o câmbio ajuda nessa subida. No começo da pandemia, no mês de março do ano passado, o barril do petróleo custava US$ 32,00 dólares. Agora em novembro o barril está cotado a US$ 83,00 dólares, com tendência de alta. O dólar estava a R$ 4,80 em julho deste ano e agora chega a R$ 5,60”.

De olho na economia. (Foto: Lucas Thaynan/Agência Tatu)

Para ter uma ideia de quanto isso impacta na renda, o proprietário de um carro popular, com um tanque com capacidade para 50 litros, gastava R$190,00 para encher o tanque em maio de 2020 e em novembro do mesmo ano ele passou a gastar R$ 225,00. Este mesmo usuário, com o mesmo carro, gasta agora cerca de R$ 327,00 para encher o tanque, isto é, R$ 137,00 a mais que em maio do ano passado.

Calculadora

Como além do transporte público, outras formas de locomoção também fazem parte do cotidiano dos maceioenses, a Agência Tatu desenvolveu uma ferramenta em que é possível analisar o custo da mobilidade em Maceió.

Entenda a metodologia usada

Para desenvolver esta plataforma, a Agência Tatu utilizou os gastos que uma pessoa pode ter em Maceió com transporte público coletivo, Uber, carro particular e táxi, levando em consideração a distância percorrida e os custos de cada meio de transporte.

Como foi feito o cálculo?

Para os carros, foram considerados a depreciação, manutenção (óleo, filtro de óleo, filtro de ar e filtro de combustível), seguros, IPVA, DPVAT e combustível. Já para os táxis, as taxas são de veículos comuns referente ao percurso e levando em consideração o valor vigente da bandeira 1. Para o deslocamento com Uber foi calculado a distância e a categoria do veículo. E quanto ao ônibus foi considerado o valor da tarifa inteira (ida e volta).

Vale ressaltar que não são consideradas taxas dinâmicas, trânsito e outros fatores externos que podem tornar um determinado percurso mais caro.

Pandemia reduz número de usuários

Desde o início da pandemia, foi possível observar uma redução brusca da quantidade de usuários do transporte público em Maceió. Isso se deve, principalmente, à adoção dos protocolos sanitários para evitar o contágio contra a Covid-19, que envolveram medidas de distanciamento social.

Enquanto em janeiro do ano passado o Sistema Integrado de Mobilidade de Maceió (SIMM) registrou 4.735.450 passageiros, o número reduziu para 1.891.115 em abril do mesmo ano, o que representa uma redução de mais de 60%

Com a reabertura do comércio, a volta às aulas e ao trabalho presencial, para quem esteve de home office – tudo aliado à redução dos casos em consequência do avanço da vacinação -, em setembro já foram 3.505.754 usuários do transporte público da capital.

Mas, para o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Maceió (Sinturb), a recuperação ainda está longe do ideal. “Mesmo com um princípio de arrefecimento da pandemia, com o avanço dos níveis de vacinação e o relaxamento das medidas restritivas no comércio, o número de passageiros segue bem abaixo dos percebidos no período pré-pandemia. Tomando como exemplo o mês de setembro: em 2019 foram registrados 5.058.209 passageiros, enquanto que em 2021, o número registrado foi de 3.505.754, cerca de 69,3% do total anterior”, finalizou o sindicato.

Galeria de fotos

Publicado em 16 de novembro de 2021

Reportagem: Thiago Aquino; Lucas Thaynan

Design e layout: Lucas Thaynan

Fotografias: Lucas Thaynan

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