O cego que tudo vê

O cego que tudo vê

Travessa da Lira, 42

Um prato de cuscuz com leite acomodado no colo, uma colher de sobremesa na mão direita e um copo de café apoiado na mesa onde assistia ao jornal local na tevê. O corpo magro sentado, inclinado para frente na tentativa de ver as notícias, logo se movimentou ao perceber nossa presença na porta da frente da casa humilde. Chegamos até o lar do motorista de ônibus aposentado José João Ferreira após conversarmos com alguns moradores do bairro.

Com mais de 95% da visão comprometida em decorrência de doenças como catarata e glaucoma, José garante que vive bem na casa, construída numa ribanceira há 38 anos. Com três dos quatro cômodos rachados, ele, a esposa Josefa Ferreira dos Santos e o filho do casal, Aldo José dos Santos, parecem conformados.

“Moro aqui há 37 anos e nunca senti nada parecido. Tudo balançou naquele dia”, relembra, olhando para o telhado. “Tive medo e não tive, porque [o tremor] não deu pra derrubar. E se tivesse dado, eu não ia poder correr mesmo sem enxergar pra onde ir”, justificou. “E mesmo que pudesse, não ia deixar minha mulher para trás”, disse, apontando para dona Josefa Ferreira dos Santos, de 65 anos, com quem é casado há 46.

A visão deficiente não impede o idoso de 76 anos de cuidar da esposa que caminha com dificuldade devido a trombose nas pernas. Tímido, o filho do casal, Aldo, não conversou com a reportagem. “Esse menino sempre foi assim, calado. Se não fosse eu pra conversar, vocês ficariam sem resposta”. Rimos.

Sentado em uma cadeira estilo balaio com armação de metal, o motorista aposentado terminou de comer seu cuscuz ao lado de uma enorme rachadura em uma das paredes da casa. A trinca seguia seu trajeto por toda a superfície pintada de rosa um tanto desbotado, passando por cima de uma das portas e terminando na cozinha, de onde se via a ribanceira e mais casas abaixo. Como um enorme dominó espalhado em peças aleatórias. Se uma casa cedesse, outras tantas viriam abaixo.

Em 21 de abril deste ano dona Josefa morreu por problemas de saúde. Dois meses depois, José e seu filho foram obrigados a deixar a casa e se mudaram para um conjunto residencial, em outro bairro de Maceió.

“Tudo tem seu tempo, minha filha e o nosso ali naquela casa terminou. Agora vejo isso”, disse o idoso por telefone, despedindo-se em seguida.

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Publicado em 11 de dezembro de 2020

 

Reportagem: Dayane Laet

Fotografias: Jonathan Lins

Diagramação: Lucas Thaynan