O amargo da 
cana-de-açúcar

Trabalhadores de usinas lideram ranking 

de acidentes em Alagoas

Reportagem: 
Graziela França, Lucas Thaynan e Micaelle Morais

04 de abril de 2018

Na vida de um cortador de cana-de-açúcar em Alagoas, a principal ferramenta de trabalho é o instrumento cortante e seu escritório é o campo aberto, onde o profissional está constantemente exposto às variações de clima e temperatura. Diante de tais condições laborais, não é surpresa o alto índice de acidentes de trabalho envolvendo a categoria, que possui a maior taxa de ocorrência do estado, superando em sete vezes o segundo colocado.

A análise realizada pela Agência Tatu, a partir dos dados do Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho (MPT), revela que, entre os anos de 2012 e 2016, foram registradas 20.048 ocorrências de acidentes de trabalho envolvendo 719 profissões em Alagoas. Deste total, os trabalhadores de cana-de-açúcar reúnem sozinhos 6.393 casos, quase um terço (31%), enquanto a categoria seguinte, os técnicos de enfermagem, tem 871 registros.

Em relação ao número de óbitos, a profissão de trabalhador da cultura cana-de-açúcar contabiliza 11 casos, perdendo apenas para o grupo de motorista de caminhão (rotas regionais e internacionais), que possui 22 ocorrências.

Cortador de cana há mais de duas décadas, José Wedson da Conceição é um dos trabalhadores que deverá ampliar a estatística nos próximos levantamentos. Ele precisou ficar afastado recentemente do emprego por causa de um acidente durante o exercício da profissão: um corte na mão esquerda. “Quando fui amolar o facão, o cabo soltou e minha mão escorregou para a parte de trás do facão. Fiquei com o corte na mão e estava de licença até um mês atrás”, relembra.

Apesar do risco constante por trabalhar com materiais cortantes e em ambientes insalubres, José Wedson frisa que a usina Sumaúma, em Marechal Deodoro, onde trabalha, presta toda a assistência necessária. “Uma coisa que a gente não pode reclamar é da assistência que a empresa dá. Aqui tem médico para nos atender, eles dão todos os equipamentos e quando ficam velhos eles querem logo trocar”, afirma.

O trabalhador de cana-de-açúcar está incluso na Norma Regulamentadora 31 (NR31), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que dispõe sobre a segurança e  saúde no trabalho dos profissionais da agricultura, pecuária silvicultura, exploração florestar e aquicultura. O documento obriga o empregador rural a fornecer os equipamentos de proteção individual (EPIs), exigir o uso e orientar o trabalhador sobre a utilização.

Segundo a norma, os trabalhadores compreendidos devem utilizar equipamentos de proteção da cabeça, olhos e face, dos membros superiores e inferiores. No dia a dia dos cortadores de cana-de-açúcar, os EPIs consistem em chapéu que cobre o rosto, pescoço e ouvidos; blusas de manga longa; luvas; botas com bico de ferro e perneiras com chapa de ferro ou plástico – estas para proteção em casos de acidentes no manuseio do facão.

O presidente da Federação dos Trabalhadores Assalariados Rurais de Alagoas (Fetar-AL), Cícero Domingos, reconhece que as condições inerentes à profissão do trabalhador da cultura da cana-de-açúcar são duras, mas considera ter ocorrido avanços nos últimos anos.

“Com certeza não é fácil trabalhar no sol de meio dia, a uma temperatura de 30 graus, cortando cana. Infelizmente essa é a realidade do nosso país, é o emprego que essas pessoas têm. Só que em comparação há 20, 30 anos, essa situação ainda avançou, como é o caso da utilização dos equipamentos de proteção individual”, avalia Domingos.

No entanto, mesmo com a proteção prevista legalmente, os acidentes com esses profissionais ainda são frequentes. De acordo com os dados do MPT, entre todas as profissões listadas, a parte do corpo mais atingida são os dedos, os acidentes mais frequentes são “cortes, laceração, ferida contusa, punctura” e o agente causador mais comum são facas e facões. Veja nos rankings abaixo:

Domingos afirmar que a Fetar tem trabalhado para verificar o cumprimento da norma do MTE. “Realizamos a fiscalização para averiguar se os equipamentos de proteção estão sendo usados. Se não, verificamos se é porque o trabalhador preferiu não usar ou a empresa que não forneceu. No primeiro caso, nós orientamos eles sobre a importância de usar os equipamentos, mas se o problema for com a empresa, nós cobramos a regularização”, garante o presidente

Um de muitos
Franciscos

Trabalhador afastado de uma usina de cana-de-açúcar em Maceió, Francisco Ferreira da Silva possui apenas 43 anos, mas já acumula vários problemas de saúde, os quais o incapacitaram de trabalhar, como hérnia de disco e artrose. As doenças foram adquiridas durante os anos em que desempenhou algumas funções dentro da empresa, em contato constante com equipamentos e substâncias que vieram a prejudicar sua saúde.

Francisco conta que começou a trabalhar na usina Cachoeira do Meirim, localizada no bairro Benedito Bentes, em Maceió, no ano de 2007, passando por diversas atividades dentro da empresa. E foi a partir de 2012, segundo ele, que os problemas na coluna começaram a aparecer e o obrigaram a se afastar do trabalho.

“Eu comecei como bituqueiro [atividade de recolhimento de cana após a colheita], trabalhei nisso por seis meses. Depois fui trabalhar na herbicida, fiquei cinco anos nessa função. Em seguida eu mudei pra trabalhador rural, depois disso eu tive problema de saúde e fui para o afastamento e até agora estou lutando pelo meu benefício”, explica Francisco.

De acordo com ele, os problemas de saúde iniciaram após o contato com o veneno dos herbicidas – produto químico utilizado na lavoura de cana-de-açúcar para o controle de ervas daninhas. Após três anos trabalhando com o pesticida, durante quatro horas por dia, problemas como hérnia de disco e artrose apareceram.

“Ela [a herbicida] prejudica muito os nossos ossos, causa ressecamento. E também eu trabalhava com muito peso nas costas, era uma bomba de 25 quilos, das seis horas até as dez, subindo e descendo ladeira, pulando levada”, conta relembrando que, mesmo com os equipamentos de proteção, era impossível evitar o contato com o veneno.

Francisco mora com a esposa e mais quatro filhos em uma grota, no bairro Benedito Bentes, em Maceió (Foto: Lucas Thaynan/Agência Tatu)

“A gente vai aplicando o veneno, aí a deriva dele [quando o defensivo agrícola não atinge o local desejado e se espalha no ar] bate no rosto da gente e, mesmo com óculos, entra aquela deriva do veneno. Mesmo que esteja com máscara e tudo, chega um momento que temos que tirar, então já estamos inalando aquele odor”.

O reumatologista Diogo Pereira explica que doenças relacionadas ao trabalho são cada vez mais comuns, principalmente quando envolve trabalhadores braçais, que realizam movimentos repetitivos.

“Acontece muito com trabalhadores rurais ou da zona portuária. É muito comum que esses funcionários apresentem, por volta dos 40, 50 anos de idade, dor lombar e em outras partes do corpo, por conta do excesso de peso e condições insalubres do trabalho”.

De acordo com o médico, a situação se agrava se o paciente já apresentar algum problema mecânico na região lombar. “As próprias condições de trabalho dos funcionários elevam os riscos e ocorrências de afastamentos por problemas de saúde. A questão do trabalho insalubre, excesso de peso, falta de respeito com a carga horária de trabalho, tudo isso são fatores predisponentes”, ressalta.

Com relação a esses casos, o reumatologista conta que a maioria dos pacientes são do Sistema Único de Saúde (SUS). “O tratamento varia a cada paciente, porque irá depender da causa e da condição do trabalhador, mas geralmente envolve o afastamento por certo período de suas funções para que ele possa se recuperar”, completa.

Francisco mostra os exames que constataram os problemas de saúde (Foto: Lucas Thaynan/Agência Tatu)

Na última função desempenhada por Francisco dentro da usina os problemas persistiam, o que o limitava em suas atividades laborais e o forçava a apresentar atestados médicos para conseguir o afastamento do emprego.

“Como trabalhador rural, os meus problemas de saúde também me prejudicavam, porque eu fazia muito movimento na coluna, então afetava bastante e adormecia as minhas duas pernas, então tinha época que eu não aguentava trabalhar e colocava até atestado na empresa, coisa que eu não gosto de fazer, mas devido à minha saúde eu era obrigado a me submeter”.

Durante o período de chuva, quando não era possível aplicar o veneno na lavoura, os trabalhadores encarregados dessa função eram destinados a outras atividades. “A gente continuava na chuva do mesmo jeito, ia arrancar capim, ia fazer qualquer outra função, já que o veneno não tinha como aplicar, então levava muita friagem no corpo”, diz Francisco falando da provável causa do surgimento da artrose.

TRANSPORTE INADEQUADO

Outro risco que os trabalhadores correm é durante o transporte para o local em que realizam suas atividades. Segundo Francisco, eles andavam em cima do caminhão de veneno, tendo um contato ainda maior com a substância.

“A gente, de vez em quando, andava em cima do caminhão do veneno, daquele jeito andando e derramando veneno pra todo lado. Tínhamos um transporte, mas o ônibus não chegava até o local do trabalho, então a gente montava no carro e ia. Para ir, a gente ia no carro do veneno, porque era cedo da manhã, agora pra voltar a gente tinha que ir a pé, por causa da fiscalização. Tinha vez que a gente andava uma hora de relógio depois de ter trabalhado a manhã toda”, conta Francisco.

Pai de quatro filhos, o funcionário da usina luta há cinco anos para conseguir seus direitos como trabalhador. Entre perícias no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e processos na Justiça, ele tenta receber o benefício, fundamental para seu sustento e da família, já que os problemas de saúde o impossibilitam de voltar ao trabalho.

Thays Bonfim Germano, advogada trabalhista que atende Francisco, conta que o cliente começou a receber o benefício em junho de 2016, mas que após a última perícia do INSS, realizada no início desse ano, o valor recebido pelo trabalhador foi cortado, pois o médico do órgão entendeu que ele poderia voltar ao trabalho.

“Ele tem atestados médicos que comprovam que ele não tem mais condições de exercer atividades que exigem esforços físicos, só que ele é uma pessoa com baixo nível de escolaridade, não tem qualificação para ser inserido no mercado de trabalho em outra profissão. Em virtude dessa incapacidade, nós entramos com pedido de benefício junto ao INSS”.

Após o corte, a advogada entrou com uma ação junto à Justiça Federal solicitando o reestabelecimento do benefício, mas uma nova perícia só poderia ser remarcada para 30 dias posterior à última vistoria. Sendo assim, a nova perícia ficou marcada para o dia 27 de abril. Até lá – pelos menos – seu Francisco segue sem renda para sustentar a família.

De acordo com a advogada, o INSS não acredita que seja o caso de aposentadoria, devido a idade do trabalhador. “Seria uma aposentadoria por invalidez permanente. Se o médico da perícia, tanto do INSS, quanto da Justiça Federal, entender que ele não tem mais condições de exercer nenhuma atividade profissional, irá aposentar”, completou.

Nesse casos, Thays acredito que o ideal seria reabilitar o seu Francisco, para que ele pudesse desempenhar uma atividade em que não fosse necessário o esforço físico. “Só que o INSS não reabilita, não treina, não dá capacitação para a pessoa exercer uma nova função, nem encaminha para o mercado de trabalho”.

O QUE FALAM AS EMPRESAS

A nossa reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da usina Cachoeira do Meirim para buscar o posicionamento da empresa sobre os fatos relatados, mas os questionamentos não foram respondidos. A usina se limitou a declarar que “em virtude do período de entressafra e consequente viagem dos responsáveis pela área agrícola da Unidade Cachoeira para outra unidade industrial no Oeste Paulista, não será possível atender de imediato sua solicitação”. Também não conseguimos contato com a administração da usina Sumaúma, em Marechal Deodoro.

 


DADOS ABERTOS – Prezamos pela transparência, por isso disponibilizamos os documentos utilizados na produção desta matéria para consulta:

Dados de Acidentes de Trabalho Notificados em Alagoas (2012 a 2016)


Imagens:  Lucas Thaynan/Agência Tatu